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DIÁRIO DE BORDO
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Toda moeda tem dois lados
O músico cristão e a igreja local – parte I

Ah, e há também o caso do pastor que tentou chamar um certo grupo musical bastante conhecido para uma programação, mas caiu de costas quando soube o que eles cobravam, e as exigências que faziam. E há também o caso do músico que aceitou o convite do pastor Miguel para alí colaborar. Foi lá, tocou, cantou, até oraram por ele. Mas o pastor fez jus ao nome: deu uma de “migué” e o músico teve de pedir carona para voltar para sua casa, pois nem o dinheiro da condução ele tinha. Eu lhe pergunto: você já viu histórias assim?
 

autor
Carlos Sider
Engenheiro e Administrador. Cristão há mais de 20 anos. Atuou como executivo em diversas empresas e hoje é Diretor Geral da Magna Latina, empresa que engloba a Provoice.
É casado com Thelma e tem 3 filhos, Ricardo, Marina e Cristina


Era uma vez José. Músico muito bom e sério. Cristão, decidiu também usar sua música a serviço do reino de Deus. Mergulhou de cabeça no trabalho de sua igreja local, servindo alí quase todos os fins de semana. Chegava mais cedo, saia mais tarde que todos, montando e desmontando instrumentos e tralhas. Ensaiava, escrevia partituras e cifras, compunha, ensinava, trabalhava. Sua música era e sempre foi boa, técnica, de conteúdo. Alguns CD´s e José já estava conhecido no meio cristão. Convites e compromissos passaram a ser realidade. Hora de viver uma nova forma ministerial, servindo também a outras comunidades e, por que não lembrar, passando a obter seu sustento também deste ministério para o qual fora chamado.

Mas José foi acusado pelo pastor da sua igreja por abandonar o barco. Como é que ficaria a igreja nos domingos em que José estivesse ausente? Por mais que José tivesse até ensinado um pessoal a tocar melhor, eles não eram a mesma coisa.

José ficou triste com o tal pastor, pois ele bem sabia de seus sonhos ministeriais e suas necessidades. Embora a igreja jamais tivesse colaborado e reconhecido seu trabalho, por que agora o acusava de correr atrás da realização de seus sonhos ministeriais e de formas de sustento?

Enfim, José resolveu partir pra outra igreja que tivesse melhor visão. Como já era razoavelmente conhecido, não foi problema achar outra comunidade que rapidamente o acolheu e fez festa para sua chegada. Afinal, quem não queria contar com alguém como José em sua igreja?

E tudo novamente começou. Se José não era mais o burro de carga, começou a ser usado de outras formas. O pastor da tal igreja o vivia chamando para acompanha-lo em suas saídas a pregar: ele pregava, o José tocava. E o pastor também pedia que José fizesse músicas para a campanha de construção, para a campanha de missões, etc, etc.

Mas se o ambiente era outro, a história não foi muito diferente. Com o tempo José deixou de ser novidade; vivia saindo a tocar “por aí”, cansou de ser garoto-propaganda de campanhas e atividades, passou a ser conhecido como “um chato exigente”, pois era sério com música, mas nesta igreja encontrou uma turma menos laboriosa, mais festiva. Era uma turma do oba-oba, mas eram filhos dos caciques. E lá se foi o ânimo outra vez.

Hoje você encontra José em seu website, tocando em algum lugar por aí num fim de semana qualquer. Diz-se que ele frequenta a “igreja X”, mas a chance de vê-lo tocando por lá é baixa. Acabou por aceitar a realidade de que tem espaço na igreja dos outros, mas não na sua. Certos dias volta a ter o comichão de colaborar, mas lembra da experiência anterior. Engole seco e segue sua vida no princípio “eu no meu cantinho, e eles no deles”. Melhor assim, diz ele.

De outro lado, veja o Antonio - pastor da Comunidade Cristã da Vila Santana da Penha (nome fictício). Sendo pastor de uma comunidade que reúne cerca de 3 mil pessoas todo fim de semana, além de pilotar os programas de TV da igreja, não aguenta mais o assédio dos músicos atuais. Foi forçado a tomar medidas drásticas junto com sua liderança limitando a participação de músicos e grupos nas reuniões, pois a fila dos interessados estava grande demais. Com um “efeito arena” deste porte, é o músico X que quer divulgar seu novo CD, o grupo Y que deseja apresentar seu novo DVD, o autor Z da editora R que desejam promover um novo livro. Começaram a surgir reclamações de membros da igreja, pois a cada domingo aparecia alguém diferente querendo vender alguma coisa.

Para que a sua igreja não virasse um mercado persa, Antonio fechou as portas para os interessados. Hoje é chamado de chato pelos de fora.

Ah, e há também o caso do pastor que tentou chamar um certo grupo musical bastante conhecido para uma programação específica, mas caiu de costas quando soube o que eles cobravam, e as exigências que faziam. E há também o caso do músico que aceitou o convite do pastor Miguel para alí colaborar. Foi lá, tocou, cantou, oraram por ele mas o pastor fez jus ao nome: deu uma de “migué” e o músico teve de pedir carona para voltar para sua casa, pois nem o dinheiro da condução ele tinha.

Eu lhe pergunto: você já viu histórias assim?

Eu lhe respondo: já, já ví, tenho visto, tenho vivido. Temos vivido tempos em que certas igrejas não são mais apenas igrejas, mas grandes arenas, grandes eventos, grandes públicos. O povo está cada vez mais exigente, e não é apenas um pianinho tocando um hino que satisfaz o pessoal: é preciso uma banda bem ensaiada, um vocal bem montado, um programa mais atrativo.

Onde? Ora, se a sua igreja não é assim, faça festa! Mas uma bem próxima de sua casa é...

Quem está certo? Quem está errado? Todos certos? Todos errados?

Tenho lá minhas opiniões. Penso existir dois tipos de músico cristão (músicos, grupos musicais, grupos de teatro, etc – generalizando todo tipo de artista cristão, incluindo seus agregados: editora, agente, produtora):

a) o bom músico – aquele sério, com visão correta de seu ministério, coerente e efetivamente chamado por Deus para fazer o que faz, com uma folha corrida de resultados que fala muito mais alto que qualquer discurso,  e

b) o mau músico – aquele que está de olho na arena, no público, que fala mais do que faz.

De outro lado, existem também dois tipos de igreja local, quase sempre personificada pelo seu pastor:

c) a boa igreja – aquela séria, com visão correta de ministério, coerente. Uma efetiva agência do reino de Deus na terra; e

d) a má igreja – aquela que não parece ser mais do que uma agremiação buscando uma boa programação; aquela que vive de evento em evento, onde o marketing, a politicagem e a grana falam mais do que a Palavra; aquela cujo pastor crê estar acima do bem e do mal.

Estes dois tipo de cada nos levam a quatro situações potenciais, que são  - em minha opinião – as que enxergo por aí:

caso 2

a má igreja
+
o bom músico

caso 4

a boa igreja
+
o bom músico

caso 1

a má igreja
+
o mau músico

caso 3

a boa igreja
+
o mau músico

Caso 1 – apesar de ser um verdadeiro caso de polícia, é fácil ver como uma coisa chama a outra. Uma igreja interesseira acaba por valer-se de músicos interesseiros. Fazem bons eventos, agremiam bom público, e agem em conjunto enquanto este público alí permanecer. Ganham até dinheiro, mas passam longe de algo que se possa chamar de ministério

Caso 2 e Caso 3 – assim que as partes se reconhecem como o que de fato são, desfazem todo e qualquer acordo. A parte boa logo percebe que está sendo  explorada, e pula fora. A boa igreja logo percebe quando o músico é um oportunista sem conteúdo, e o bom músico logo percebe quando é chamado a ser ‘vaso de flor em festa de igreja’. Um pode enganar o outro uma vez, quando muito duas, mas não dura muito.

Caso 4 – seria o bom caso, se não fosse tão raro nos dias atuais. Mas existem, graças a Deus. Tal qual no caso 1, as partes boas se reconhecem, e uma chama a outra.

Se você é músico (ou algum outro tipo de artista) cristão, eu pergunto: onde você se encaixa? Se você é pastor, líder, membro de uma igreja, também pergunto: onde se encaixa a sua igreja? Antes de sair criticando um ou outro, que tal verificar o que precisa ser consertado?

Se você não sabe, sou um músico cristão, e tenho também me envolvido na liderança de igrejas locais. Neste Brasil de hoje você por certo pode imaginar algum nome real para os Josés ou Antonios de há pouco. Confesso que viví e tenho vivido um pouco de tudo.

Creio que é hora de aposentarmos nossos discursos de púlpito, nos quais igrejas e músicos se inflamam em votos de eterno apoio e importância entre si. É hora de fazer com que as atitudes efetivamente percebidas na vida real falem mais alto. Músicos que efetivamente respeitem suas igrejas locais, e dêem a devida importância a elas. E igrejas que reconheçam o ministério de seus músicos, honrando devidamente os que mecerem honra. Basta de conversa mole enquanto cada parte segue vivendo como se nada tivesse a ver com a outra. Pobres lados da mesma moeda, que ainda não descobriram que são uma moeda só, e que só tem valor se forem unidos.



Veja a sequencia deste artigo:
Músicos: ministério ou brincadeira de fim de semana?
O músico cristão e a igreja local – parte II

Não seja conhecido pelas extravagâncias na sua lista de exigências de camarim. Seja um exemplo em como lidar com as necessidades (e os custos) de seu ministério. Não seja apenas conhecido por sua habilidade técnica. Seja exemplo em como usa-la para Deus, sem estrelismos, com seriedade e competência. Não seja conhecido pelas modas que você lança. Seja exemplo pela ousadia com que você fala de Deus e prega e vive Sua Palavra. Não seja conhecido apenas pelo número de pessoas que discordam...
 

 

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