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Era uma vez José. Músico muito bom e sério. Cristão, decidiu também usar
sua música a serviço do reino de Deus. Mergulhou de cabeça no trabalho
de sua igreja local, servindo alí quase todos os fins de semana. Chegava
mais cedo, saia mais tarde que todos, montando e desmontando
instrumentos e tralhas. Ensaiava, escrevia partituras e cifras,
compunha, ensinava, trabalhava. Sua música era e sempre foi boa,
técnica, de conteúdo. Alguns CD´s e José já estava conhecido no meio
cristão. Convites e compromissos passaram a ser realidade. Hora de viver
uma nova forma ministerial, servindo também a outras comunidades e, por
que não lembrar, passando a obter seu sustento também deste ministério
para o qual fora chamado.
Mas José foi acusado pelo pastor da sua igreja por abandonar o barco.
Como é que ficaria a igreja nos domingos em que José estivesse ausente?
Por mais que José tivesse até ensinado um pessoal a tocar melhor, eles
não eram a mesma coisa.
José ficou triste com o tal pastor, pois ele bem sabia de seus sonhos
ministeriais e suas necessidades. Embora a igreja jamais tivesse
colaborado e reconhecido seu trabalho, por que agora o acusava de correr
atrás da realização de seus sonhos ministeriais e de formas de sustento?
Enfim, José resolveu partir pra outra igreja que tivesse melhor visão.
Como já era razoavelmente conhecido, não foi problema achar outra
comunidade que rapidamente o acolheu e fez festa para sua chegada.
Afinal, quem não queria contar com alguém como José em sua igreja?
E tudo novamente começou. Se José não era mais o burro de carga, começou
a ser usado de outras formas. O pastor da tal igreja o vivia chamando
para acompanha-lo em suas saídas a pregar: ele pregava, o José tocava. E
o pastor também pedia que José fizesse músicas para a campanha de
construção, para a campanha de missões, etc, etc.
Mas se o ambiente era outro, a história não foi muito diferente. Com o
tempo José deixou de ser novidade; vivia saindo a tocar “por aí”, cansou
de ser garoto-propaganda de campanhas e atividades, passou a ser
conhecido como “um chato exigente”, pois era sério com música, mas nesta
igreja encontrou uma turma menos laboriosa, mais festiva. Era uma turma
do oba-oba, mas eram filhos dos caciques. E lá se foi o ânimo outra vez.
Hoje você encontra José em seu website, tocando em algum lugar por aí
num fim de semana qualquer. Diz-se que ele frequenta a “igreja X”, mas a
chance de vê-lo tocando por lá é baixa. Acabou por aceitar a realidade
de que tem espaço na igreja dos outros, mas não na sua. Certos dias
volta a ter o comichão de colaborar, mas lembra da experiência anterior.
Engole seco e segue sua vida no princípio “eu no meu cantinho, e eles no
deles”. Melhor assim, diz ele.
De outro lado, veja o Antonio - pastor da Comunidade Cristã da Vila
Santana da Penha (nome fictício). Sendo pastor de uma comunidade que
reúne cerca de 3 mil pessoas todo fim de semana, além de pilotar os
programas de TV da igreja, não aguenta mais o assédio dos músicos
atuais. Foi forçado a tomar medidas drásticas junto com sua liderança
limitando a participação de músicos e grupos nas reuniões, pois a fila
dos interessados estava grande demais. Com um “efeito arena” deste
porte, é o músico X que quer divulgar seu novo CD, o grupo Y que deseja
apresentar seu novo DVD, o autor Z da editora R que desejam promover um
novo livro. Começaram a surgir reclamações de membros da igreja, pois a
cada domingo aparecia alguém diferente querendo vender alguma coisa.
Para que a sua igreja não virasse um mercado persa, Antonio fechou as
portas para os interessados. Hoje é chamado de chato pelos de fora.
Ah, e há também o caso do pastor que tentou chamar um certo grupo
musical bastante conhecido para uma programação específica, mas caiu de
costas quando soube o que eles cobravam, e as exigências que faziam. E
há também o caso do músico que aceitou o convite do pastor Miguel para
alí colaborar. Foi lá, tocou, cantou, oraram por ele mas o pastor fez
jus ao nome: deu uma de “migué” e o músico teve de pedir carona para
voltar para sua casa, pois nem o dinheiro da condução ele tinha.
Eu lhe pergunto: você já viu histórias assim?
Eu lhe respondo: já, já ví, tenho visto, tenho vivido. Temos vivido
tempos em que certas igrejas não são mais apenas igrejas, mas grandes
arenas, grandes eventos, grandes públicos. O povo está cada vez mais
exigente, e não é apenas um pianinho tocando um hino que satisfaz o
pessoal: é preciso uma banda bem ensaiada, um vocal bem montado, um
programa mais atrativo.
Onde? Ora, se a sua igreja não é assim, faça festa! Mas uma bem próxima
de sua casa é...
Quem está certo? Quem está errado? Todos certos? Todos errados?
Tenho lá minhas opiniões. Penso existir dois tipos de músico cristão
(músicos, grupos musicais, grupos de teatro, etc – generalizando todo
tipo de artista cristão, incluindo seus agregados: editora, agente,
produtora):
a) o bom músico – aquele sério, com visão correta de seu
ministério, coerente e efetivamente chamado por Deus para fazer o que
faz, com uma folha corrida de resultados que fala muito mais alto que
qualquer discurso, e
b) o mau músico – aquele que está de olho na arena, no público, que fala
mais do que faz.
De outro lado, existem também dois tipos de igreja local, quase sempre
personificada pelo seu pastor:
c) a boa igreja – aquela séria, com visão correta de ministério,
coerente. Uma efetiva agência do reino de Deus na terra; e
d)
a má igreja – aquela que não parece ser mais do que uma agremiação
buscando uma boa programação; aquela que vive de evento em evento, onde
o marketing, a politicagem e a grana falam mais do que a Palavra; aquela
cujo pastor crê estar acima do bem e do mal.
Estes dois tipo de cada nos levam a quatro situações potenciais, que
são - em minha opinião – as que enxergo por aí:
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caso 2
a má igreja
+
o bom músico |
caso 4
a boa igreja
+
o bom músico |
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caso 1
a má igreja
+
o mau músico |
caso 3
a boa igreja
+
o mau músico |
Caso 1 – apesar de ser um verdadeiro caso de polícia, é fácil ver como
uma coisa chama a outra. Uma igreja interesseira acaba por valer-se de
músicos interesseiros. Fazem bons eventos, agremiam bom público, e agem
em conjunto enquanto este público alí permanecer. Ganham até dinheiro,
mas passam longe de algo que se possa chamar de ministério
Caso 2 e Caso 3 – assim que as partes se reconhecem como o que de fato
são, desfazem todo e qualquer acordo. A parte boa logo percebe que está
sendo explorada, e pula fora. A boa igreja logo percebe quando o músico
é um oportunista sem conteúdo, e o bom músico logo percebe quando é
chamado a ser ‘vaso de flor em festa de igreja’. Um pode enganar o outro
uma vez, quando muito duas, mas não dura muito.
Caso 4 – seria o bom caso, se não fosse tão raro nos dias atuais. Mas
existem, graças a Deus. Tal qual no caso 1, as partes boas se
reconhecem, e uma chama a outra.
Se
você é músico (ou algum outro tipo de artista) cristão, eu pergunto:
onde você se encaixa? Se você é pastor, líder, membro de uma igreja,
também pergunto: onde se encaixa a sua igreja? Antes de sair criticando
um ou outro, que tal verificar o que precisa ser consertado?
Se você não sabe, sou um músico cristão, e tenho também me envolvido na
liderança de igrejas locais. Neste Brasil de hoje você por certo pode
imaginar algum nome real para os Josés ou Antonios de há pouco. Confesso
que viví e tenho vivido um pouco de tudo.
Creio que é hora de aposentarmos nossos discursos de púlpito, nos quais
igrejas e músicos se inflamam em votos de eterno apoio e importância
entre si. É hora de fazer com que as atitudes efetivamente percebidas na
vida real falem mais alto. Músicos que efetivamente respeitem suas
igrejas locais, e dêem a devida importância a elas. E igrejas que
reconheçam o ministério de seus músicos, honrando devidamente os que
mecerem honra. Basta de conversa mole enquanto cada parte segue vivendo
como se nada tivesse a ver com a outra. Pobres lados da mesma moeda, que
ainda não descobriram que são uma moeda só, e que só tem valor se forem
unidos.
Veja a sequencia deste artigo:
Músicos:
ministério ou brincadeira de fim de semana?
O músico cristão e a igreja local – parte II
Não seja conhecido
pelas extravagâncias na sua lista de exigências de camarim. Seja um
exemplo em como lidar com as necessidades (e os custos) de seu
ministério. Não seja apenas conhecido por sua habilidade técnica. Seja
exemplo em como usa-la para Deus, sem estrelismos, com seriedade e
competência. Não seja conhecido pelas modas que você lança. Seja exemplo
pela ousadia com que você fala de Deus e prega e vive Sua Palavra. Não
seja conhecido apenas pelo número de pessoas que discordam...
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