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Muito já se escreveu sobre o assunto. Das muitas coisas boas, deixo a
tarefa de ser profundo para livros como “O coração do artista”, de Rory
Noland, e “Músico: profissão ou ministério”, de João Alexandre e
Luciano Garruti. São páginas de bons conceitos, experiências e vários
pontos de vista para que cada um balize os seus.
Aqui tenho a oportunidade e dever de ser conciso. Portanto, nada melhor
do que pensar nos 4 pontos que sempre usei para meu próprio consumo
pessoal. Três deles saem do exemplo bíblico de Timóteo.
1) A chama do dom de Deus
Dou graças a Deus, a quem sirvo com a consciência limpa, como o serviram
os meus antepassados, ao lembrar-me constantemente de você, noite e dia,
em minhas orações. Lembro-me das suas lágrimas e desejo muito vê-lo,
para que a minha alegria seja completa. Recordo-me da sua fé não
fingida, que primeiro habitou em sua avó Lóide e em sua mãe, Eunice, e
estou convencido de que também habita em você. Por essa razão, torno a
lembrar-lhe que mantenha viva a chama do dom de Deus que está em
você mediante a imposição das minhas mãos.
2 Timóteo
1:3-6
Paulo o tinha em alta conta. Via em Timóteo a fé autêntica, a vida
séria, dons, talentos e capacidades que o faziam seguro de que Deus
realmente havia separado o rapaz para uma boa e grande obra.
Você é músico? Ótimo. Conhece a Deus? Melhor ainda. O que Deus quer de
você com sua música? Não sabe ao certo?
Tem de haver a chama. E se existe a tal chama do dom de Deus em sua
vida, duas coisas acontecem:
a) você sabe que ela existe – é aquele algo em você que não lhe deixa
parar. É o que lhe tira da inércia e faz trabalhar, mesmo sem que
alguém peça. É aquele “algo” que você consegue fazer mas sabe que não
veio só por estudo e treino. É o que alguns chamam de inspiração. Gosto
de pensar que é o “sopro de Deus”
b)
outros percebem que ela existe – talvez não seja sua música que é
especialmente boa, mas suas letras, sua voz, sua habilidade
instrumental, sua vida, o que e como você fala e faz. Os outros percebem
que Deus faz algo em você, e por tabela, também faz algo neles, através
de você.
Existem as duas coisas? Ótimo. Grande chance de você ter a tal chama do
dom de Deus. Portanto, você tem um ministério.
Mas antes que você se anime e já sonhe com a fama, lembre-se que só em
Brasília ministro significa chefão, manda-chuva, poderoso. Na Bíblia
ministério significa serviço, trabalho, encrenca, muito abacaxi a
descascar.
Também não se anime só porque em sua igreja existe espaço para que você
toque ou cante. Banheiros também servem para isso. Não saia por aí
procurando por palcos para cantar. Siga a chama do dom de Deus na
instrução de onde e o que ministrar; onde e a quem servir, ajudar,
trabalhar.
Tal como clubes e garagens, igrejas também estão cheias de dublês de
músicos. Da mesma forma que bater uma bolinha de fim de semana não faz
de você um Ronaldinho, tocar um violão em rodinha de amigos (ou no
louvor da sua igreja) não necessariamente diz a você que há um
ministério.
Não estou dizendo que só os ‘muito bons’ tem um ministério da parte de
Deus. Estou dizendo que ministros tem aquilo que faz os outros
perguntarem: “o que ele tem de diferente?”
A chama. O que faz diferença é a chama.
2) Que ninguém lhe despreze...
Ninguém o despreze pelo fato de você ser jovem, mas seja um
exemplo para os fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na
pureza
1 Timóteo
4:12
Se você realmente tem a chama, e isso não é opinião apenas sua, que
ninguém lhe despreze. Nem por ser jovem, nem por ser músico, nem por ser
isso ou aquilo. Seja o que Deus lhe separou para ser.
E
se começar a haver algum tipo de desprezo? E se alguém começar não dar a
devida importância ao que você faz?
Bem primeiramente volte ao item 1 e veja se os outros realmente
reconhecem que você tem a chama. Ah... e não valem sua mãe nem suas
tias. Gaste mais tempo com o espelho e com amigos verdadeiros que sejam
capazes de dizer o que precisa ser dito. Esta análise deve ser feita
sempre, mesmo que você já esteja na estrada há muito tempo. Não custa
nada, e faz um bem danado.
Aliás, colecione estes bons amigos. São raros, mas existem. São
preciosos, mas são de graça. Mas não são nem puxa-sacos nem fãs. São em
geral chatos, construtivamente críticos. A medida em que uma certa fama
e reconhecimento surge (e isso não é ruim, não; é só escorregadio...),
eles lhe ajudam a manter os pés no chão, e o trem nos trilhos.
E se mesmo assim, vencida a etapa anterior, seguir havendo desprezo,
desrespeito, discordância?
Bem, saiba que sempre vai haver. Todo e qualquer ministro (servo) de
Deus encontra oposição em seu trabalho, de uma forma ou de outra. Por
que Paulo disse isso a Timóteo? Ora, porque havia desprezo por ele ser
jovem! Paulo o estava consolando, e o incentivando a seguir em frente, a
vencer o desprezo.
Desprezo vai haver. Lide com ele, lembrando-se sempre que Deus não o
despreza, nem você deve se desprezar.
E como se faz para lidar com este desprezo?
3) Seja um exemplo
Na forma como você procede, na forma pela qual a Palavra é seguida em
sua vida, na pureza de seus atos e intenções, no amor e afinco com que
você trabalha. Enfim, seja um exemplo de alguém que tem a chama do dom
de Deus acesa dentro de si.
Não seja conhecido pelas extravagâncias na sua lista de exigências de
camarim. Seja um exemplo em como lidar com as necessidades (e os custos)
de seu ministério.
Não seja apenas conhecido por sua habilidade técnica. Seja exemplo em
como usa-la para Deus, sem estrelismos, com seriedade e competência.
Não seja conhecido pelas modas que você lança. Seja exemplo pela ousadia
com que você fala de Deus e prega e vive Sua Palavra.
Não seja conhecido apenas pelo número de pessoas que discordam de você.
Seja exemplo em como você lida e respeita seus opositores. Viva em voz
alta.
Não seja conhecido “pelos panos quentes” que sua gravadora/produtora tem
de usar para abafar suas molecagens, suas farras, adultérios, desvios
morais, etc. Seja um exemplo de vida, e siga com autoridade em seu
ministério.
Não seja conhecido pelos respeito que você exige. Seja exemplo, pelo que
sua esposa e seus filhos atestam que você é em casa.
E se mesmo assim continuar havendo desprezo, desrespeito, etc? Ora,
volte ao item 2, talvez ao 1, e a resposta não estiver lá...
4) Busque sua Cafarnaum
Todos falavam bem dele, e estavam admirados com as palavras de graça
que saíam de seus lábios. Mas perguntavam: "Não é este o filho de José?"
Jesus lhes disse: "É claro que vocês me citarão este provérbio: 'Médico,
cura-te a ti mesmo! Faze aqui em tua terra o que ouvimos que fizeste em
Cafarnaum' ". Continuou ele: "Digo-lhes a verdade: Nenhum profeta é
aceito em sua terra. Asseguro-lhes que havia muitas viúvas em Israel no
tempo de Elias, quando o céu foi fechado por três anos e meio, e houve
uma grande fome em toda a terra. Contudo, Elias não foi enviado a
nenhuma delas, senão a uma viúva de Sarepta, na região de Sidom. Também
havia muitos leprosos em Israel no tempo de Eliseu, o profeta; todavia,
nenhum deles foi purificado - somente Naamã, o sírio"
Mateus
4:22-28
Sei que soa pesado. Pode soar arrogante virar as costas e buscar outro
caminho. Mas se você passou assume diante de Deus a responsabilidade de
suas convicções e a seriedade de seu ministério, não fique insistindo em
Nazaré. Trabalhe onde Deus lhe abre as portas, e saiba entender e
aceitar quais Ele fecha.
Muito mais do que um ato de desagravo, aprendí a ler este texto como uma
recomendação de não ficar insistindo com quem não quer lhe ouvir, nem
ficar dando murros em pontas de faca.
Mas cuidado! Sua Cafarnaum não está onde estão seus fãs. Cafarnaum está
onde Deus indica. Lembre-se que nenhum dos grandes profetas da Bíblia
foi um campeão de audiência. Elias, Eliseu, Jeremias, Isaias viviam como que falando sozinhos, pois poucos estavam
dispostos a ouvi-los. E eles seguiram servindo. E hoje são lembrados por
isso.
É realmente preciso “procurar Cafarnaum”? Há horas em que é preciso,
sim. Principalmente quando estamos em lugares onde interesses e
personalismos reinam soltos. Há muitas igrejas por aí cheias disso, onde
líderes, pastores e até músicos lutam entre si para se tornarem os donos
do show de cada domingo.
Sobre isso falo no próximo artigo desta série.
Veja o artigo anterior:
Toda
moeda tem dois lados
O músico cristão e a igreja local – parte I
Ah, e há
também o caso do pastor que tentou chamar um certo grupo musical bastante
conhecido para uma programação, mas caiu de costas quando soube o que eles
cobravam, e
as exigências que faziam. E há também o caso do músico que aceitou o convite
do pastor Miguel para alí colaborar. Foi lá, tocou, cantou, até oraram por
ele. Mas o pastor fez jus ao nome: deu uma de “migué” e o músico teve de
pedir carona para voltar para sua casa, pois nem o dinheiro da condução ele
tinha. Eu lhe pergunto: você já viu histórias assim?
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