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Há duas semanas atrás falamos sobre “Você é dono de igreja?” (Aliás, se
quiser ler a primeira parte, clique aqui).
Bem, voltando ao final do artigo anterior, como é que estes donos aparecem?
Como é que isso acontece? Que passos são dados? E em que direção?
Por certo alguém pega o desvio em algum lugar. Em algum momento um grupo de
pessoas deixa de ser uma igreja segundo o projeto de Jesus, para ser igreja
segundo “alguém”. Onde fica esse desvio? Em que momento isso ocorre?
Confesso que fiquei pensando bastante tempo nisso. E cheguei a algumas
conclusões:
1)
o desvio
ocorre no coração, no íntimo de um líder, e isso ocorre muitas e muitas
vezes;
2)
este desvio é
“confirmado” ou “deletado” em um processo, onde mais gente da igreja
“concorda” ou “discorda” deste líder;
3)
todo e
qualquer líder está bem mais próximo do que pensa de querer ser dono da
igreja (ou de pelo menos de parte dela)
Sobre a primeira e a terceira afirmações, que atire a
primeira pedra o líder que jamais se achou dono do seu pedaço. Que nunca
disse, intimamente: isso aqui só anda porque eu estou aqui! Que
jamais se sentiu contrariado quando outros, de outros ministérios, chegaram
e começaram a dizer que as coisas deveriam ser de outro jeito.
A convivência entre o “achar-nos donos” e o “reconhecer quem é o dono de
verdade” é contínua. Os bons líderes aos olhos de Deus são os que aprenderam
deixar a gangorra pender do lado certo na maior parte das vezes. E isso é
contrário a nossa natureza. O natural, para quem é líder, é ter as coisas
sob controle, é comandar, é dar os rumos o tempo todo. Duro é entender, e
praticar, que Deus espera de nós que sejamos os representantes, porta-vozes
dele. Não sócios.
Portanto, concluo que todo e qualquer líder cristão teve, tem e terá
momentos em que desejará ser o dono do pedaço. Ocasiões em que agirá como
dono.
Mas graças a Deus que existem os liderados. E graças a Deus liderados também
pensam, relacionam-se com o mesmo Deus e tem boca pra falar. Na maioria das
vezes em que o líder entra no desvio (ainda que inconscientemente), o
dia-a-dia com os liderados o faz lembrar rapidinho que o buraco é mais
embaixo. Seja porque lhe cai a ficha, seja porque Deus usa algum liderado
mais corajoso que lhe diz umas poucas e boas, seja o que for.
Se você é líder, pense em quantas vezes saiu de casa com uma idéia na
cabeça, e na hora do “vamos ver” ficou claro que a idéia não dava tanto
Ibope assim...
Graças a Deus existem outros líderes também. E com outros
dons. Outras formas de ver a mesma coisa. E que são usados por Deus para que
idéias “nocivas” sejam deletadas, não apoiadas.
Entretanto, a igreja do Pr. Fulano é composta por um líder
que um dia se achou dono da coisa (o Fulano), e por um grupo de pessoas que
gostou da idéia. Alguém pensou: no dia em que o Fulano mandar de fato vou
ser regente do coro! Outro disse: no dia em que o Fulano ditar as
regras “esses chatos” (os incomodados, que se mudaram mais tarde) vão
perder a pose e a vez. E a maioria disse, como sempre, que tanto faz
como tanto fez. Pena que Cristo perdeu o posto de dono da igreja para o
Fulano. O Cristo ressurreto, Emanuel, Deus conosco, Salvador, Pai da
Eternidade, Príncipe da Paz foi trocado... por um mortal, incapaz de se
salvar sozinho, pecador, mas que fala bem, e que tem bons amigos que o
apoiam.
Ainda bem que é só ficção... o Fulano e as fulanetes são só personagens
deste artigo.
O mesmo processo deve ter ocorrido na igreja dos Pereira. Onde o Pastor se
inclui no grupo de apoio (gostando ou não, sabe-se lá).
E na igreja Oxbridge
(mais uma vez
esclareço: nome fic-tí-cio – qualquer semelhança é mera coincidência)?
Alguém, até correto em suas intenções, seja o Pastor, seja algum membro,
deve ter perguntado: “como nossa igreja pode ser mais eficaz?”
Aproveitando de uma boa solução (boa mesmo, não é ironia, não), foi ver o
que se fazia por aí, por aqui, por acolá. E encontrou, dentre muitas opções,
a Oxbridge. Gostou tanto que resolveu aplicar na sua igreja. Sem filtros ou
adaptações. Mais ainda: pediu apoio a eles, no que prontamente foi atendido.
E eles, com sua cultura de colonização, chegaram e ocuparam o espaço, na
base do “deu-certo-lá-vai-ter-que-dar-certo-aqui-did-you-understand?” Neste
caso o cargo de dono não foi pleiteado. Foi oferecido, e aceito.
Se você é um líder, concluo que nós (também sou um) não podemos e
não devemos sair dizendo: “desta água não beberei”. Já bebemos, continuamos
bebendo e beberemos ainda mais, sim! Está em nós, até pelo amor que
dedicamos a causa santa, o desejo de fazer acontecer. E é natural e exemplar
jogarmos tudo o que somos e temos nisso. Pena que podemos esquecer que a
causa é santa justamente porque não é nossa. É de Deus. É Ele quem a
santifica. E Ele é o único dono. Basta um deslize e eu já virei Fulano, você
já virou Pereira, e juntos chamamos a Oxbridge para nos patrocinar. Aquele
que está de pé, olhe que não caia. Nós nos encontramos com o Fulano e com o
Pereira todo dia no espelho. Precisamos mortificá-los e deixar Cristo
mandar.
E se você faz parte de uma igreja, líder ou liderado, saiba que pesa sobre
nós esta responsabilidade. A de manter Deus no seu posto – o de dono da
igreja. Ele manda, nós obedecemos.
Ele institui líderes? Sim. Ele unge e capacita líderes? Sim. Mas se algum
líder começa a usurpar o título de dono, abra a sua boca! Faça a sua parte.
Exorte. Com amor, com sabedoria, exerça o que é sua responsabilidade.
Afinal, você é integrante da igreja de Deus. E o líder é tão humano e falho
como você.
Como disse há muito tempo
João Batista, convém que Ele cresça e eu diminua. Que Jesus
cresça,
cresça,
cresça,
e que nós diminuamos,
diminuamos,
diminuamos,
diminuamos...
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