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Há poucos dias atrás eu assistia ao retrospecto mental do que foi o ano de
2003 pra mim. Foi inevitável passar por uma cena bastante marcante. Junho.
Trabalhar com música, sair por aí tocando e cantando traz
seus prazeres e suas agruras. A agenda é fechada com semanas de
antecedência, e mal sabemos como estaremos no dia.
Os meses de maio e junho foram meses de pressão. Contas crescendo, pouco
dinheiro, indefinições, incertezas. Dentre muitas coisas, havia uma reunião
importante marcada. Nela muita coisa seria discutida, e eu precisava chegar
nela com algumas definições. O futuro do meu negócio estava sendo jogado
naquela história. Meu pescoço junto.
Mas pelas coincidências que só Deus apronta, a minha agenda
apontava que na noite anterior à tal reunião eu deveria estar cantando em
uma igreja em Osasco, cidade próxima a S.Paulo.
A situação não seria muito especial se não fosse o fato de, até a hora de
sair para a igreja, eu estar vivendo umas das maiores tensões da minha vida.
Eu não tinha a menor idéia do que apresentar na tal reunião, que posição
tomar, o que definir. Enquanto isso, eu me via com a cabeça girando em outro
tom, tendo que separar teclado, músicas, equipamentos, colocar tudo no carro
e encarar os 80 km de estrada que me separavam do lugar. Francamente, a
última coisa na face da terra que eu gostaria de estar fazendo naquele
momento era aquilo.
Poucos quilometros após minha casa, comecei a orar, clamar, chorar. Fui
chorando de Vinhedo a Osasco. Eu era ansiedade pura! Em breve teria que
cantar quando queria chorar, teria que louvar quando o instinto era
reclamar. Era alguém que via seu pequeno negócio virando fumaça no dia
seguinte. Que via seus planos e projetos desabarem. Que não sabia para onde
correr. Que queria explodir com tanta pressão. Como encarar o pessoal da
igreja nesse estado?
Foi assim que eu cheguei lá. Indiretamente, Deus usou o próprio pessoal da
igreja para me dar a primeira lição daquele dia. “Carlos, aqui nós
cantamos muito aquela sua música que fala da paz...” E eu me dizia: “ai,
quem me dera sentir essa paz agora”. Depois: “Carlos, você vai cantar
aquela, não vai?”
O pessoal ia falando enquanto eu me dedicava à rotina de montar estante,
colocar o teclado, ligar os cabos, testar isso, testar aquilo, Deus foi me
mostrando, usando as letras das minhas próprias músicas, que Ele jamais
tinha deixado o controle do bonde. E que só me faltava lembrar daquilo. Esta
foi a primeira lição, que me deu o necessário para o começo do programa.
E assim foi. Pouco depois eu passava a palavra para quem iria
pregar. Sentei. Peguei minha Bíblia e seguí o texto. Isaías 55.
Parafraseando: “Ah, você que tem sede, venha para as águas! Ah, não tem
dinheiro? Venha, compre e coma, sem pagar. Por que gastar seu dinheiro no
que não é pão? Por que gastar seu suor no que não satisfaz? Ouça! Achegue-se
e a mim e a sua alma viverá”
E mais adiante: “Busque a Deus enquanto se pode acha-lo! Chame por Ele
enquanto está perto”
E depois: “Por que os meus pensamentos não são como os seus. Os meus
caminhos não são como os seus. Porque assim como os céus são mais altos que
a terra, os meus pensamentos e caminhos são mais altos do que os seus. Da
mesma forma como a neve e a chuva descem dos céus, e para lá não voltam
antes que tenham regado a terra, que a tenham fecundado e feito brotar, para
dar semente ao semeador e pão ao que come, assim a palavra que sai da minha
boca não voltará para mim vazia sem que antes tenha feito o que me agrada e
cumprido tudo para que a designei”
Que lavada! Que surra eu estava levando! Que lição! E eu preocupado com a
reuniãozinha de amanhã?!?! E o homem dizendo que a ordem que Ele dá não
volta sem que antes tenha sido cumprida!!!
Durante aquela pregação eu me sentí de alma lavada. Acalentado por Deus, e
certo que a reunião do dia seguinte, mesmo sem saber o que fazer nela,
estava no controle dele. E saí de lá com as duas primeiras linhas de uma
música na cabeça.
Dando um forward na fita, eu me vejo agora me preparando para mais um
programa quando vou pegar meu teclado e vou cantar. Agora na minha igreja. É
domingo, 28/12/03. Relembrando tudo isso, sou forçado a reconhecer que fui
para a reunião sem saber o que fazer nela. Ainda bem. Cheguei lá e os
assuntos principais estavam encaminhados. Bastava eu entender e concordar.
Meses depois, vejo como eu sofrí por coisas que jamais chegaram a acontecer.
E relembrando tudo isso, resolvo terminar aquela música com a qual saí de
Osasco na cabeça. Termino e canto nesse mesmo dia 28/12.
Deus não pensa como pensa o homem
Não enxerga como o homem vê
Não caminha por caminho humano
Não se pauta pelos planos meus
Como os céus se elevam sobre a terra
E o sem-fim que pode compreender?
Tão mais altos são Seus pensamentos
Tão infindos são os planos Seus
Busco a Deus! – ainda se pode acha-lo
Clamo a Deus pois Ele perto está
Nele encontro amparo e bom caminho
O caminho que não vai falhar!
Acho a paz que a alma tanto anseia
O poder pra me limpar do mal
A certeza de que estou no rumo
Junto a quem sabe bem mais que eu
Deus não para pra pensar na vida
No que fez, no que deixou pra trás
Não promete o que talvez não cumpra
Não refaz nenhum dos planos Seus
Em Suas mãos está o poder da vida
Tudo sabe, sabe o que virá
Nada faz com que se surpreenda
Nada altera o que já traçou
Ele é o Deus que consertou meus trilhos
Ele é o Deus que sempre perto está
Meu amparo, o meu bom caminho
Que me leva onde preciso estar
Traz a paz que alma mais precisa
Sua grandeza só me faz calar
Ele é quem define qual meu rumo
Ele é quem sabe bem mais que eu
Quero terminar com duas citações. Uma de Woody Allen, que é
verdadeira algumas vezes, principalmente quando achamos que sabemos para
onde vamos: “Se você quer fazer Deus rir, conte a Ele os seus planos!”
Outra de André Fontana, pastor da minha igreja: “Que Deus!”
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