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DIÁRIO DE BORDO
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A Igreja Cristã do Santo Evento
...enfim, o que as caracteriza? Ora, não os eventos em si, mas a grande e descabida incidência deles. A importância que se lhes dá em detrimento a coisas mais importantes e duradouras, ainda que trabalhosas e pouco imediatas. A aparente sensação de que a vida da igreja acontece ao redor de encontros, programações, festas do sorvete, festas da pipoca, acampamentos, acampadentros, almoços, jantares, chás, enfim, muvucas e agitação. E a “dependência química” que se cria na sequencia deles, pois mal acaba um lá precisa vir outro. Todo evento tem de terminar com os avisos a respeito dos próximos. A peteca não pode cair; não se pode perder o embalo.

autor
Carlos Sider
Engenheiro e Administrador. Cristão há mais de 20 anos. Atuou como executivo em diversas empresas e hoje é Diretor Geral da Magna Latina, empresa que engloba a Provoice.
É casado com Thelma e tem 3 filhos, Ricardo, Marina e Cristina


Evento mesmo! Não se trata de confusão; não foi por engano que troquei “Santo Advento” por Santo Evento. Foi proposital.

Basta notar o que acontece a sua volta. Basta querer ver. Fica fácil notar como cresce o número das igrejas que poderiam perfeitamente adotar este nome. E sempre há uma perto de você!

Óbvio que não estou falando de todas, e nem tampouco generalizando. Mas que elas existem, existem... ah, se existem...

Mas alto lá! Antes que você me tenha por maluco, preciso definir algumas coisas bastante importantes:

- estou falando de eventos mesmo, de programações, de atrações promovidas pela igreja, de encontros;

- nada contra eles. Eles são necessários e úteis. São boas estratégias para fazer com que gente chegue para ouvir a mensagem que precisa ouvir. São bons, apropriados e altamente eficazes quando usados na medida certa;

- mas tudo contra tê-los como centro de tudo. Tudo contra tê-los em absurdo exagero. Tudo contra alicerçar a vida da igreja neste tipo de coisa!

Então, enfim, o que caracteriza as chamadas “igrejas do Santo Evento”?

Ora, não o evento (ou os eventos) em si, mas a grande e descabida incidência deles. A importância que se lhes dá em detrimento a coisas mais importantes e duradouras, ainda que trabalhosas e pouco imediatas. A aparente sensação de que a vida da igreja acontece ao redor de encontros, programações, festas do sorvete, festas da pipoca, acampamentos, acampadentros, almoços, jantares, chás, enfim, muvucas e agitação. E a “dependência química” que se cria na sequencia deles, pois mal acaba um lá precisa vir outro. Todo evento tem de terminar com os avisos a respeito dos próximos. A peteca não pode cair; não se pode perder o embalo.

Outra coisa que as caracteriza? Experimente tirar os eventos e veja a total pasmaceira que resta. A igreja parece outra durante férias, feriadões, “entre-safras”. Enquanto há agitação, parece que a comunidade ‘transpira vida’. Quando eles se vão, fica um gosto estranho... será que ‘a vida’ vai embora junto??? 

Muito fácil fazer com que a moçada se reúna. Promova um show gospel com uma banda das boas. Promova encontros entre igrejas da região (pra que “eles” e “elas” conheçam gente nova, ora). Ah, e no final faça um estudo bíblico curto. Garantia de sucesso!

Ah, sei... o seminarista quer começar a fazer discipulado com os jovens? Uma hora por semana em torno da Bíblia, orando, semana após semana, por meses? E ainda confronta a vida dos carinhas com as verdades bíblicas? Ora, onde esse idealista está com a cabeça?

Quer envolver os homens da igreja? Promova encontros de networking. Homem adora isso – trocar cartões de visita (não sabe nem pra quê, mas vai que um dia, quem sabe), falar sobre negócios enquanto belisca uns salgadinhos. Só não entre nos assuntos chatos. Não fale de fidelidade, de ética nos negócios, de lisura fiscal. Seja “diplomático”. Leve tudo em banho-maria.

O pessoal da sua igreja gosta da tradição? Convide corais para cantar. Ah, é o contrário? Convide bandas, grupos, pastores para falar. Não deixe a peteca cair.

Igrejas assim dependem mesmo da peteca no ar. Porque elas só vivem de olhar para a peteca, para o evento. Ai, ai, ai se a peteca cair...

Mas um dia a peteca cai. E não é só a da igreja que cai, mas a peteca das pessoas também cai, e sempre – a qualquer momento - há alguém com a sua caída.

Nessas horas, o que fazer? Marcar mais eventos?

Nessas horas quanto vale o evento, a agitação, a muvuca?

Nada!
 
Pessoas volta e meia se entristecem, se deprimem, perdem emprego, brigam em casa, ficam sem dinheiro, ficam doentes. Não só, mas também nessas horas precisam de pastoreio, de ensino, de transformação de vidas. E quanto mais disso houver na igreja, mais forte ela é para enfrentar crises, dificuldades, pauladas. Igreja são fortes a medida em que as pessoas que as formam são fortes em sua vida cristã.

E como ter uma igreja forte? Priorizando o que realmente importa: fazer discípulos, ensina-los a guardar todas as coisas que Jesus nos ensinou a guardar, enquanto usufruimos da presença do Espírito de Deus em nós, que prometeu estar e está conosco até o fim do “projeto-igreja”. Enfim, priorizar as coisas demoradas, as coisas nada imediatas. Enfim, ser missão, ser igreja. Priorizar discipulados transformadores. Passar longe da definição de “agência promotora de eventos”.

A vida de uma igreja saudável se faz notar principalmente na hora das crises. Basta ver como as pessoas as enfrentam. Igreja onde há vida daquele tipo, abundante, é estável, firme, consciente. Seu ânimo não entra em férias, pois se baseia no dia a dia com Cristo, não numa efêmera “peteca” lançada ao ar por esforço humano.

A igreja de verdade é. A igreja do evento foi ou será, pois sempre depende de ‘como foi’ o último e ‘como será’ o próximo evento.

Não transforme sua igreja numa agência promotora de eventos. A vítima pode ser você, ou sua esposa, seu filho, sua filha, seu amigo, seu irmão...

 

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