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Não tenho dúvida
nenhuma que o século 21 será, em semelhança ao século 20, marcado por uma
forte influência da ciência na vida das pessoas. Em qualquer área do
conhecimento, mas principalmente aquele que se relaciona com as
biotecnologias, já temos experimentado um avanço extraordinário. No que diz
respeito aos avanços na área da genética, o fluxo de novas informações é
tremendamente alto. Garanto que nem Watson e Crick imaginavam o quanto esse
conhecimento cresceria desde a descoberta que fizeram sobre a estrutura do
DNA.
Hoje o que mais nos chama a atenção são as pesquisas sobre as
células-tronco, particularmente as células-tronco embrionárias. Essas
células são as mais cobiçadas pelos geneticistas e o alvo de uma intensa
discussão bioética. Sempre vejo congressos e debates sobre elas. Até mesmo
eu já fui convidado algumas vezes a participar de discussões sobre a
utilização dessas células para pesquisas científicas. A conclusão a que
tenho chegado é que a maioria das pessoas da sociedade não faz a mínima
idéia do que seja uma célula-tronco. E, quando tento saber de um evangélico
o que é uma célula-tronco, a situação é ainda pior (na verdade hoje em dia,
não sei nem mais o que significa ser chamado de evangélico!).
Célula-tronco é um tipo de célula capaz de se diferenciar e constituir
diferentes tecidos do corpo humano. Isso significa que uma célula-tronco
pode se diferenciar para uma célula nervosa (neurônio), ou uma célula
cardíaca, ou uma célula da pele, ou uma célula do fígado, entre outros
órgãos. A outra capacidade que essas células têm é de se auto-replicarem.
Isso significa que elas podem gerar cópias idênticas a elas mesmas.
Como
elas surgem? Essas células surgem da fecundação do óvulo pelo
espermatozóide. Ou seja, quando há a concepção de um novo ser humano. É
muito fácil entender. Quando ocorre a fecundação forma-se uma célula
primordial, o zigoto. A partir desse momento essas células passam por
sucessivas e inúmeras divisões. Isso significa que essa única célula se
divide em duas, depois cada uma dessas se divide em quatro, depois em oito,
em dezesseis, em trinta e duas células e assim sucessivamente. Até que, nove
meses depois, temos um bebê pronto para nascer. O espetacular desse processo
é que no início havia uma única célula. À medida que esse processo vai se
desenrolando, a quantidade de células vai aumentando e elas vão se
diferenciando e se transformando nos 216 tecidos que formam o corpo humano.
Pegue agora sua Bíblia e leia o versículo do Salmo 139:16! Queria saber como
foi que o salmista chegou a essa conclusão?
Mas
onde está o problema? Imagine que uma mulher suspeita de estar grávida e
essa gravidez está por volta dos 15 dias. A pergunta é: essa mulher está
grávida de um ser humano ou de um amontoado de células que ainda vai se
transformar num ser humano? Para dificultar um pouquinho mais: quando começa
a vida biológica? Não tenho dificuldade nenhuma em afirmar que logo depois
do encontro do óvulo com o espermatozóide, temos um novo ser humano.
Os
cientistas encaram o começo da vida de maneiras variadas, porém podemos
colocar aqui as três mais reconhecidas. Há aqueles, que como eu, entendem
que a vida começa no momento da concepção, tendo em vista que a carga
genética já está completa no momento da concepção. Um segundo grupo de
cientistas coloca que a vida começa no momento em que o embrião não é mais
capaz de ser dividido e originar outros indivíduos. Isso acontece até 12
dias após a fecundação, período em que, se as células forem divididas
poderão originar duas ou mais pessoas (como é o caso de gêmeos idênticos).
Um terceiro grupo pontua o início da vida quando se percebe a atividade
cerebral do embrião idêntica a de uma pessoa. Não há consenso de quando
acontece isso, contudo a formação do sistema nervoso central se estende da
9ª semana até a 20ª.
Em
março desse ano, a quantidade estimada de embriões congelados era em torno
de 10 mil. Esse número foi fornecido pela Sociedade Brasileira de Reprodução
Assistida como resultado de uma pesquisa enviada a 45 clínicas de reprodução
humana. O problema é que apenas 15 clínicas responderam a essa pesquisa. Em
recente publicação (edição 219/novembro 2005), a revista
Superinteressante fez uma boa reportagem sobre o assunto e estimou a
quantidade de embriões congelados há mais de 3 anos em 20 mil. Realmente não
dá para saber quantos embriões congelados temos efetivamente. O fato é que
eles estão aí e todos os segmentos da sociedade estão discutindo que fim
eles deverão ter.
Esse é
o primeiro artigo sobre células-tronco que escrevo. Nos próximos vou
discutir um pouco as questões éticas que envolvem esse tipo de pesquisa e
tentar relacionar essas questões éticas com a ética que retiramos da Bíblia.
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Veja outros artigos desta série:
Células-tronco
embrionárias ou seres humanos embrionários?
Imagine que uma
mulher está há duas semanas com a menstruação atrasada e, desconfiada,
compra na farmácia mais próxima da casa dela um teste para gravidez.
Sentindo os sintomas básicos de uma provável gravidez ela faz o teste com
quase certeza do resultado que aparecerá. Depois de alguns minutos de colher
o material, a cor do teste se modifica e suas suspeitas se confirmam: ela
está grávida. Minha pergunta é: ela está grávida de quê?
Há algum tempo atrás a resposta a essa pergunta seria óbvia: ela está
grávida de um bebê. Mas o que entendemos pela palavra “bebê”?
Embriões
congelados. O que fazer com eles?
Pois bem, no Brasil há cerca de 20 mil embriões congelados, que não serão
usados para fertilizar nenhuma mulher e que, em aproximadamente 3 anos,
serão completamente descartados, serão jogados fora! Só pra apimentar a
conversa: são 20 mil embriões que, se implantados em 20 mil mulheres
poderiam gerar 20 mil crianças! Retomo a mesma pergunta dos dois textos
anteriores: esses 20 mil embriões são seres humanos ou não? Se não são
humanos, então podemos utilizá-los nas pesquisas como se usássemos células
sangüíneas. Podemos tirar alguns mililitros de sangue de uma pessoa,
utilizar em pesquisa e essa pessoa doadora não perde a sua vida por causa
disso. Se não são humanos, então não infringiremos nenhuma lei, pois não
mataremos nenhum ser humano.
Agora, se considerarmos esses embriões como humanos legítimos...
Descarte
de embriões - Será que Deus concorda?
A argumentação de que
o uso desses embriões lhes daria dignidade (“pois seriam descartados
mesmo...”), esconde um problema. Esses embriões não têm capacidade de
decidir se querem ou não fazer parte das pesquisas científicas. Não se pode
dispor da vida dos seres vivos a bel prazer, mesmo com a argumentação do
benefício universal, do bem-estar geral, do avanço científico ou até mesmo a
argumentação da cura de certas doenças.
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