Sou biólogo. Amo a vida e os seres vivos. Gosto demais de como o sistema
nervoso funciona e coordena os sinais visíveis dessa vida biológica que
todos temos. Acredito que uma das maiores razões da minha paixão pelo
sistema nervoso é o fato de ainda sabermos pouco sobre ele.
Voltei a estudar o
sistema nervoso. Estou relembrando coisas antigas e aprendendo coisas
novas. Ainda bem que estou aprendendo mais do que relembrando. Sinal de
que os estudos estão avançando e estamos conhecendo hoje muito mais que
no passado.
É
preciso que se diga que o assunto que vou tratar pode gerar certas
polêmicas. A interação do sistema nervoso com nosso cotidiano é assim
mesmo. Quando se mexe com questões da consciência, inconsciência e a
determinação da vontade somos mexidos no centro de nossas emoções e de
nossas convicções. Mas não tenho problemas com questões polêmicas. Pelo
contrário.
Um
dos assuntos mais controvertidos dentro da história da Igreja é o
livre-arbítrio. Esse assunto divide opiniões de tal maneira que se você
quiser acabar com uma aula de Escola Dominical, pergunte se existe ou
não livre-arbítrio e você vai ver que naquele dia o professor
dificilmente voltará ao assunto original.
Basicamente encontramos dois tipos de argumentação. Há aqueles que
defendem a existência do livre-arbítrio e os que se opõem a ele.
Historicamente os defensores do livre-arbítrio ficaram conhecidos como
arminianos por causa de Jacobus Arminius. Já os que defendem a
inexistência do livre-arbítrio são conhecidos como calvinistas devido a
João Calvino.
Talvez o título desse artigo não dê a exata dimensão de seu conteúdo.
Por isso mesmo peço sua atenção redobrada a partir de agora. O que
determina a nossa vontade? Por que hoje você escolheu a cor da
camisa que está vestindo? Por que escolheu ler esse artigo nesse momento
e não depois? Essas perguntas parecem simples. Só parecem. Para um
neurofisiologista responder essas perguntas não é tão simples. Se você
fizer um teste e perguntar para um deles e lhe der tempo para responder,
ficará pelo menos uns 45 minutos para saber porque ele optou pela camisa
vermelha e não a azul.
Entendo que para as pessoas que não estão interessadas na atividade
cerebral seja ridículo perguntar essas coisas. Daí o fato de ter
colocado o termo livre-arbítrio no título desse artigo. Parece não haver
coisa mais banal do que escolher uma camisa azul, vermelha ou preta. É
realmente banal estudar o cérebro para saber simplesmente porque escolho
a camisa vermelha e não a azul. Mas quando tratamos de questões mais
elaboradas como profissão, casamento e filhos, nossas escolhas ficam
mais sérias. E, sejamos honestos, gostamos da liberdade de escolher a
cor da camisa, ou a profissão que queremos ter, ou o cônjuge com que
queremos viver e a quantidade de filhos que vamos ter.
Todos nós podemos escolher essas coisas. Qualquer homem ou mulher, hoje
no século 21, por exemplo, pode escolher com quem casar. Afinidades
psicológicas, comportamentais, sentimentais podem aproximar duas pessoas
de modo definitivo. Da mesma forma que se o casal de namorados chega à
conclusão que as afinidades não existem, rompe-se o namoro e cada um
segue o seu rumo. Optaram livremente. Sem a coação de fatores externos
ao relacionamento, se separam agora e dizem não ao casamento. Isso é
liberdade de escolha, vontade própria.
Será mesmo? Será mesmo que nada nos influencia nas nossas
escolhas? Escolher a cor da camisa, a profissão, o cônjuge... será mesmo
que somos livres pra fazermos essas escolhas? Preste atenção para
o experimento que vou relatar agora.
O
experimento é muito simples. Uma pessoa é colocada diante de um monitor.
Nele há um círculo numerado e uma bolinha percorrendo cada número. A
única ação que a pessoa deve fazer é apertar um botão sempre que tiver
vontade. Depois, é só dizer em qual número do círculo ele teve vontade
de apertar o botão. Todo o experimento é monitorado por um
eletroencefalograma que registrava a atividade cerebral na região que
controla os comandos dos movimentos musculares.
Qual foi o resultado? A vontade de mexer o dedo vem antes da realização
dessa ação. Até aí nenhuma novidade. Todo mundo sabe que realizamos algo
somente depois que temos vontade de realizar essa específica ação.
Primeiro eu tenho vontade depois vou realizá-la. Antes do músculo do
dedo se mexer o cérebro coordena e envia a mensagem para a realização do
movimento. O surpreendente do experimento é que antes de se manifestar a
vontade, as regiões cerebrais que coordenam o planejamento da ação do
dedo já estão em atividade.
A
implicação é que o cérebro não "sente vontade" de mexer um dedo, depois
ativa o programa adequado, depois mexe o dedo. Ao contrário: ele
primeiro ativa o programa adequado; dois ou três décimos de segundo mais
tarde aquilo, de alguma forma, se transforma em “vontade”; e só outros
tantos segundos depois o dedo é acionado. Não sei se você já percebeu
onde quero chegar. Mas de alguma forma, antes de sentirmos alguma
vontade o cérebro já está determinando nossa ação e coordenando nossa
vontade. Coordenando é um eufemismo da minha parte, na verdade, a
palavra é controlando e determinando.
Se
o cérebro estaria determinando a vontade é algo mais controverso ainda e
que carece de estudos mais aprofundados. Contudo, se nesse momento você
está com vontade de parar de ler esse artigo porque não gosta da idéia
de não ter livre-arbítrio, saiba que o fato de não gostar dessa idéia,
não te faz livre para continuar a ler. Se assim for, por hora, vou
realizar sua vontade.
Só para pensar, até que ponto nosso arbítrio é livre? Até o próximo.
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