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No dia 05 de agosto,
a página na internet do jornal Folha de São Paulo, publicou uma
notícia que poderá abrir um precedente no Brasil (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u111714.shtml).
A notícia relata a autorização que a 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça
de Minas Gerais concedeu a uma mulher a realizar o aborto de seu feto
anencéfalo. O caso tinha sido julgado por outra vara e o recurso havia sido
negado. Nesse novo resultado, o tribunal reconheceu a incompatibilidade do
feto em viver depois de nascer, além de ser diagnosticada uma grave anomalia
abdominal. Não sou advogado e, portanto, não vou discutir o mérito dessa
decisão. Mas como biólogo, não posso deixar de tratar dessa questão; muito
menos como cristão!
Para quem não sabe, a
anencefalia é uma anomalia em que o feto consegue se desenvolver no útero,
porém desprovido de cérebro. Nessas condições, depois de nascer, ele não
terá nenhuma chance de sobrevivência, chegando ao óbito poucas horas depois.
Essa situação é extremamente delicada, pois antes dos recursos atuais de
diagnóstico fetal, a mãe não sabia como a criança estava se desenvolvendo e,
eventualmente, isso colocava a mãe e risco de perder a vida. Sem dúvida
nenhuma, nosso cérebro é um dos órgãos mais fantásticos do nosso corpo e o
controlador de todas as nossas atividades. Sem ele, a vida não é possível.
Entretanto, hoje temos a condição de acompanhar o desenvolvimento dos fetos
com imagens até tridimensionais, podendo perceber seus movimentos e até se
está sorrindo. Isso abre um caminho fantástico para os pais, pois podem ver
seu filho se desenvolvendo. O problema aparece quando esses exames revelam
algum problema incompatível com a vida, como é o caso da anencefalia. Nesses
casos, o que pais que seguem a Bíblia devem fazer? Que instruções podemos
tirar da Palavra de Deus? É isso que passo a expor agora.
Pelo
Salmo 127:3 percebemos que nossos filhos não nos pertencem. É importante os
pais saberem disso desde o início e os casais sem filhos saberem antes dos
filhos chegarem. Não criamos nossas crianças para nós mesmos. Nossos filhos
pertencem a Deus, assim como cada um de nós. O futuro deles, a vida deles, a
profissão deles, quem eles escolherão como cônjuge, tudo isso pertence ao
Senhor. No início do salmo 24 lemos que todos os habitantes da terra
pertencem ao Senhor. Isso precisa ficar bem estabelecido, porque há uma
tendência natural das mulheres gestantes desejarem ser absolutas sobre seu
corpo. O liberalismo e o pensamento do mundo dizem que nosso corpo pode ser
usado da maneira que acharmos mais conveniente. Assim, muitas mulheres podem
considerar, por causa dessa influência, que a criança dentro do seu útero
lhe “pertence” e só depois do nascimento é que essa criança teria algum
direito.
Não é
verdade. Embora seja totalmente dependente da mãe durante a gestação, o feto
tem sua “independência” e direito à vida. Nem a nossa vida nos pertence.
Somos dependentes do Senhor para respirar e viver e um dia teremos que dar
conta do que fizemos nesta vida. O feto, ainda intra-uterino, tem seu
direito à vida assegurado pelo próprio fato de estar em desenvolvimento num
corpo vivo. Caso aconteça algum problema que impeça a mãe de continuar viva,
o feto “lutará” ao máximo para se manter vivo. É lógico que se não for
retirado a criança morrerá. Mas sua concepção já lhe assegura o direito de
viver. É preciso estabelecer que a única diferença entre eu, de 33 anos
(recém completos), e um feto recém concebido, é apenas a nossa idade e como
nos alimentamos. Logo que o óvulo é fecundado pelo espermatozóide, ele já
apresenta os 46 cromossomos responsáveis por abrigar todo o código genético
para formar um ser humano.
Ora, a
vida de uma mulher, grávida ou não, não lhe pertence em nenhum dos âmbitos
da vida. No âmbito familiar essa mulher pode ser mãe, filha, avó, tia,
prima, sobrinha... Não importa, existem laços familiares que não se
dissolvem simplesmente porque alguém decidi assumir que pode fazer o que
quiser com sua vida. No âmbito das amizades dessa mulher, também não há
liberdade absoluta. Ora, se uma amiga minha tem a liberdade de se matar,
onde fica a minha liberdade que querer tê-la próximo de mim? Nas amizades
também há laços que precisam ser preservados. Agora imagine se esta mulher
ficar grávida. Se Deus nos coloca como mordomos do nosso próprio corpo, uma
mulher grávida recebe, da parte de Deus, uma dupla função: exercer sua
mordomia também na manutenção do seu feto.
Somos
instados a apresentar nossos corpos como um sacrifício santo, vivo e
agradável a Deus (Romanos 12:1). Nosso corpo é habitação do Espírito
Santo de Deus (1 Coríntios 6:19) e, portanto, não somos de nós mesmos. O que
fazemos com nosso corpo é responsabilidade nossa e daremos conta disso a
Deus (2 Coríntios 5:10). O fato de sermos responsabilizados por Deus sobre
as nossas ações através do corpo, não nos torna donos desse corpo. A nós
pertence a responsabilidade de cumprir a ordem de Deus.
Mas
alguém poderá objetar da seguinte forma: “Marcos, meu filho não tem chances
de sobreviver. Não há diferença se ele morrer agora ou depois.” Nesse caso
sou obrigado a argumentar assim: “Seu filho poderá não ter chance de
sobrevivência, mas se você tirá-lo Deus não terá chance de curá-lo.”
Queridos, vivemos dias cheios de ceticismo e incertezas. Por que Deus não
curaria uma criança anencéfala? Por que decidiríamos atravessar a frente do
Senhor e interromper a vida de uma criança? Veja bem, Deus não tem obrigação
de nada. Quando pergunto se Deus não curaria uma criança assim, quero dizer
que Ele pode fazer, se quiser fazê-lo. Se nos adiantamos a isso,
colocamo-nos acima dEle e tomamos a decisão que nos parece mais certa.
Outra
objeção que pode ser feita é quanto aos traumas que essa família terá ao ver
seu filho nascer sem cérebro. Ora, por que realizar um aborto seria menos
traumático? Fazer o aborto traria paz e tranqüilidade a esse casal? Por
quanto tempo? Por que cometer uma violência contra essa criança? Muitas
vezes esse ato se transforma em violência contra a própria mãe! Nada há que
justifique essa atitude. E quando digo isso, sempre sou perguntado o que
faria se passasse por essa situação. Minha resposta tem sido sempre a mesma:
a nossa vida, minha, de minha futura esposa e dos filhos que Ele mandar
pertence ao Senhor, só Ele sabe o que é melhor para nós. Vamos nos comportar
como filhos que amam a Deus e querem agradá-lO em todas as decisões. Agora,
hoje é a hora de pensarmos essas coisas pois ainda não passamos por isso.
Agora temos serenidade para projetarmos nosso futuro. Meu convite é que você
faça o mesmo.
Nesse
momento devo apontar o fato de que, se a mãe corre risco comprovado de
perder a vida, não a condeno se optar por essa prática. Se o diagnóstico for
de uma criança anencéfala seguida de risco para a mãe durante a gestação,
não vejo problema nisso. Afinal de contas, não nos é dado o direito de
preservar uma vida em detrimento de outra. Essa situação é muito complicada
e de foro estritamente íntimo do casal. A Bíblia nos recomenda o bom senso e
o equilíbrio, além disso, que todas as nossas ações devem glorificar ao
Senhor.
Abortar
não curaria a criança, Deus pode curá-la. Abortar não evitaria a tristeza e
a depressão de uma gravidez nesses termos, Deus pode consolar. Nossos
traumas, durante a gravidez e depois do parto, serão tratados por Deus da
melhor forma que Ele escolheu para nós. Como filhos de Deus devemos ter
sempre em mente que Ele tem total ascendência sobre nós. Quando não temos
filhos, seguimos a orientação da Bíblia e oramos a Deus para que Ele nos dê
a bênção da paternidade e da maternidade. No momento em que Ele nos dá os
filhos, também temos que seguir os princípios da Bíblia, ainda que a criança
seja anencéfala. E é legítimo também que oremos a Deus para que Ele nos
preserve dessa situação tão difícil.
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