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Suinolândia era uma cidade pacata. Apesar do
fato da maioria esmagadora dos habitantes da cidade serem porcos, era uma
cidade limpa, tranqüila, que nos últimos tempos andava em polvorosa. Era que
se achava por aquelas bandas o terrível Lobo Mau, personagem conhecido das
lendas de muitos povos, mas nunca antes visto por aqueles ingênuos
porquinhos.
A cidade ultimamente andava meio estranha mesmo. O novo Prefeito,
Sr. Je-suíno, evangélico que era (como a maioria dos porquinhos da cidade),
já havia feito suas primeiras participações na vida “política” da cidade, e
participações “importantíssimas”, todas recomendadas pelo seu Pastor, ou
melhor, Apóstolo, o Reverendíssimo Sr. Renê Porcalhão. Trocou o nome da
cidade, que antes se chamava “Nossa Senhora dos Porquinhos Aflitos”. Colocou
em letras garrafais na bandeira da cidade a frase “Suinolândia é do Senhor
Jesus, Povo de Deus, declare isso”. Fez uma cerimônia de purificação do
Palácio do Governo, expulsando assim os “demônios territoriais” que ali
estavam alojados, e ainda ungiu com óleo todos os seus Ministros e
Secretários (todos membros de sua Igreja, é claro). Todos atos realmente
significativos e transformadores da realidade local. Coisa de porco, né ?!
Ah! Uma outra coisa. Ele
não retirou o monumento da entrada da cidade, um monumento estranho, algo
como um Esquadro e um Compasso invertidos, acho que emblema da Má-suinaria,
entidade da qual o Prefeito (e seu Pastor) faziam parte.
Havia nessa cidade três porquinhos irmãos muito interessantes. Os
três eram evangélicos também, apesar de reunirem-se em Igrejas bem
diferentes.
O primeiro, mais novo,
havia recentemente perdido todos os seus bens. Um assaltante (esse sim, um
porco de verdade) havia lhe roubado tudo o que tinha, todos os seus
pertences, só lhe restou a pobre casa de palha, e a fé de que dias melhores
viriam.
O segundo, depois de
abandonar a Má-suinaria, perdeu o emprego, não conseguiu mais nada, e vivia
de “bicos” em sua pobre casinha de madeira.
O terceiro, diferente de
todos, era rico. Afinal de contas, como ele mesmo dizia, ele era “Filho do
Rei”. Membro da igreja do Apóstolo René Porcalhão, trabalhava também na
Prefeitura, e era Secretário de Fazenda do Município. Tinha uma vida um
tanto dúbia, pois todos sabiam que ele “metia a pata” no dinheiro público, e
seus bens não conferiam muito com o que ganhava como funcionário da PMS
(Prefeitura Municipal de Suinolândia), mas sabia se esconder como ninguém
atrás de sua capa evangélica. Sua casa, diferente das casas dos irmãos, era
muito grande, feita de tijolos, com várias dependências. Tinha uma vida boa,
pra porco nenhum botar defeito.
Com a notícia de que o Lobo Mau andava pela cidade, havia um certo
ar de batalha na cidade. Os fiéis do Rev. Porcalhão já haviam dado sete
voltas em volta da cidade, amarrando o Lobo Mau, mandando-o para o abismo e
coisas desse tipo, mas acho que a corda era fraca, pois toda semana repetiam
o ato. E não era só contra o Lobo, mas contra seus lobinhos também: o
lobinho da fome, lobinho da miséria, lobinho do medo, lobinho da
dor-de-cabeça, enfim parecia haver tantos lobinhos que não sei como achavam
tantos nomes.
Certo dia, o Lobo Mau em pessoa resolveu aparecer, e foi direto na
casa do primeiro porquinho. Ao chegar, viu-o orando e como não conseguia
tocar-lhe soprou forte sobre a casa de palha, e esta se espalhou ao vento,
revelando a todos na cidade o grande poder do Lobo, mas também o fato
notório de que ele não podia, sequer, tocar naquele porquinho.
Saindo dali, o malvado
Lobo, parou em frente a casa do segundo porquinho, uma casa simples de
madeira, mas vazia. O porquinho havia saído para mais um “bico”. Com muita
raiva, destruiu toda a casa deixando-a em escombros, para tristeza do
porquinho que chegou logo depois, e só teve como consolo orar.... e recebeu
consolo.
Logo depois, o famigerado
Lobo Mau deparou-se com uma mansão enorme, dessas de filme, com chafariz,
piscina, carros na garagem, e pensou: é agora que eu me faço!! Ao ver o Lobo
no portão de sua casa, o terceiro porquinho não hesitou: foi para fora e com
dedo em riste disse: - Lobo Mau, eu te amarro e ordeno que me digas toda a
verdade em nome de Jesus. O Lobo, percebendo o modo de pensar do porquinho,
resolveu não destruí-lo, era melhor conversar. O porquinho pensava que
porque dizia a frase mágica “em nome de Jesus”, o Lobo seria obrigado a
responder-lhe realmente a verdade. Coitado! Não sabia que o Lobo tentou
enganar até o próprio Senhor Jesus. O porquinho lhe perguntava sobre sua
hierarquia Lobal, como se organizavam, áreas de atuação de cada lobinho,
como eram os nomes deles realmente. E, malandro como era, o Lobo entrou na
dança. Respondia tudo como lhe era agradável, satisfazendo o desejo
incontrolável do porquinho em saber detalhes da vida de Lobo.
Logo, chegaram vários
outros porquinhos da cidade, sabedores da visita do Lobo ao porquinho mais
velho. Multidões queriam ouvir o Lobo falar, ouvir o Lobo é melhor que ouvir
o Cordeiro. Sem que o porquinho percebesse, o Lobo já estava sentado em sua
grande sala, com todo o conforto, com toda a pompa, ocupando lugar de
destaque em sua casa. A febre tomou conta da cidade. O porquinho mais velho
resolveu, através de suas conversas publicar dois grandes livros, que logo
se tornaram os mais vendidos nas livrarias ditas evangélicas: “A Divina
Revelação do Lobo Mau” e “Ele Veio Para Devorar os Porquinhos”. Ganhar
dinheiro com as revelações do Lobo Mau era um grande negócio, pois ninguém
mais queria ler as Palavras do Cordeiro, palavras mansas, denunciativas,
coisas que não interessavam muito a porquinhos ocupados com o grande Lobo
Mau.
Em tempo: os outros irmãos
juntaram-se e construíram uma outra casa, simples, mas firmada sobre a
rocha, que Lobo Mau nenhum mais conseguirá derrubar. Humildes, reconheciam
em todas aquelas provações, razões para crescerem em Deus, pois a única
coisa que o Lobo não lhes tinha tirado, renovava a esperança dos mesmos em
uma vida melhor: a FÉ !!
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