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Márcio Cardoso
É presbítero e ministro de louvor na
Igreja Betesda em Curitiba, PR
Conhecer para melhor adorar
Um elemento indispensável para a nossa espiritualidade é a razão. A
inteligência é uma das jóias raras que o ser humano tem. Inúmeras vezes a
Bíblia nos alerta para o uso desse talento.
Dificuldade com tudo o que é
de graça
O tempo em que vivemos é ditado pelo
mercado. É extremamente competitivo, individualista e capitalista. Tudo gira
em torno do dinheiro e não existe nada de graça. Talvez seja por isso a
tendência que o ser humano tem de “pagar” por tudo. Uma pessoa recebe um
presente do amigo e já trata de saber a data de seu aniversário para poder
retribuir o presente; é alguém que está provando de um tempo gostoso, de
êxito, onde tudo está fluindo e diz: “é muito bom pra ser verdade. Belisca
aqui pra ver se eu estou sonhando. Isso não vai durar muito tempo”.
Ele chegou!
Espera o pequeno a vida vestida de
imprevisível e adornada de dinâmica: conquistas, angústia de rins,
encontros, a sombra da morte, prazeres, a dor da perda, o reconhecimento, a
ingratidão, tudo a que tem direito um humano...
- Mas seja corajoso, irmão! Vai que o medo vai ter medo de lhe acompanhar!
Estrada afora vão com o peregrino o Altaneiro que se acocora para conversar,
o Pão molhado em vinho servido na boca, o beijo leve nos olhos da brisa do
Espírito e os três presentes – o suficiente para o estrangeiro guardar sua
fé até voltar para o lar e o Reino em festa gritar: “Ele chegou!”.
Garimpando
palavras
Das vezes que sai
à procura de CD´s evangélicos foi só para a minha tristeza e decepção. Claro que
encontrei trabalhos com beleza, rebuscados, inovadores, mas em maior proporção
encontrei trabalhos feios, de extremo mau gosto e em nada comprometidos com a
arte.
É teimosa a mania dos evangélicos de clonar; a cultura do “Ctrl c”; bater na
mesma tecla, tema, expressões, melodias, ritmos que chega a saturação!
O conceito de "bom" - Por que me
chamas bom?
O homem é um ser vaidoso. Vive encantado por aquilo que faz e
constantemente age como se a sua vida fosse avaliada por aquilo que já
produziu ou conquistou. Produzir é uma das palavras preferidas do
consumismo, do capitalismo, do mercado, e isso é tão grave que estarmos à
toa, de vez em quando, é inconcebível - o suficiente para sentirmos culpa.
Quem já saiu de férias e não conseguiu relaxar e teve que manter contatos
com o seu trabalho para ver se as coisas andavam bem? Quem já ficou doente e
sentiu culpa por não estar produzindo o que “deveria”?
O Deus
de cada dia
O Atemporal quer participar da nossa rotina, ele não vai se entediar como o
senhor de Cotidiano: “... todo dia eu só penso em poder parar, meio-dia eu só
penso em dizer não...” (Chico Buarque), pois como escreveu G. K. Chesterton,
Deus “é forte o suficiente para se alegrar na monotonia” (citado por Philip
Yancey em “Alma Sobrevivente” p. 55).
Deus quer estar junto (e está!) quando você for escovar os dentes, acordar com a
“cara de travesseiro”, for deixar as crianças no colégio, quando alguém lhe
cortar no trânsito, “naqueles dias”, na derrota, na morte, na tentação, na sua
intimidade e não apenas na “hora marcada” – a hora é agora, a hora é já.
O Deus que acolhe as nossas crises
Depois da morte de Jesus, esses
discípulos voltam para Emaús levando na mochila muita frustração, dor,
saudades e dúvidas. Não tiveram nem a paciência de esperar o fim do terceiro
dia (o dia da prometida ressurreição) e já desistiram dos seus sonhos, das
profecias e da promessa de Cristo
O
Mestre da Palavra
No encontro com a mulher do poço Jesus usa as palavras mais adequadas: “água da
vida”, “beber”, “saciar”, “sede”, e assim redireciona a sede física da mulher
(de água e de intimidade) para a sede espiritual.
No capítulo 6 de João o Mestre usa as palavras “fome”, “pão”, “comida” quando o
interesse da multidão era o pão material. Assim, numa rítmica pulsante cheia de
arte, Jesus conduz os ouvintes à necessidade do Pão que dá vida.
Na cura de um cego de nascença (Jo 9) o Poeta Maior usa as expressões “luz do
mundo”, “cegos vejam”, “...os que vêem se tornem cegos” como metáfora de uma
realidade que tem outros olhos... (“o essencial é invisível aos olhos!”).
Pegaram
Judas pra Cristo!
Não seria isso hipocrisia?
O maior pecado de Judas,
segundo Gedeon Alencar, não foi a traição, mas o de considerar sua traição maior
do que a graça de Deus. Judas, cheio de remorso, ao invés de mergulhar na graça
dá um fim em sua vida! Certamente Judas teria alcançado graça nas faces ternas
de Jesus, mas preferiu fazer o descaminho!
Não pretendo aqui inocentar a Judas, justificar ou diminuir o “grau” de sua
traição, pintá-lo diferente do que nos apresenta os Evangelhos. Gostaria apenas
de refletir sobre movimentos sutis pecaminosos dentro do meio cristão que têm a
“malhação” de Judas como seu emblema maior!
Perdigotos do Criador
No meu coração a voz de Deus, o chamado divino “buscai a minha presença”.
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Voz da Trindade nas minhas entranhas. Tão retumbante...! Falou uma vez, ouvi
três...
Simultaneamente frágil, frágil como o sono, quase imperceptível... Eco da
Eternidade me convidando à comunhão.
Seu canto cheio de magia me embriaga, encanta e me seduz; melodia que ouço
com a ajuda de outro Amigo – o Santo Espírito que cava ouvidos em mim e os
lubrifica.
E eu ouço...
Quando o belo ofusca o Belo
Fico a me perguntar se nesses grandes movimentos gospel a adoração das
pessoas é uma resposta à beleza de Cristo ou ao carisma do ministrante; é uma
reação à santidade de Deus ou ao do showman; tem um fim nas faces do Senhor ou
se distrai com os canhões de luzes; é um encantar-se pela majestade do Rei dos
reis ou pelo “poder” daquele que detém o microfone.
Lamento dizer que muitos dos púlpitos evangélicos se tornam um espaço para o
exercício da vaidade e do poder: o levita pavão, o sacerdote leão! (ou
vice-versa).
Essa tentação é fato! Aqueles que pisam no púlpito sabem disso.
Quem
tem olhos para ver - veja!
Nós nos
tornamos responsáveis por aquilo que vemos. O que enxergamos quando vemos? O que
vibra em nosso corpo quando vemos o que vemos? Minha visão provoca alguma ação?
Assim começa o nosso texto: “Ao passar viu ele [Jesus] um cego de nascença”.
Jesus tinha olhos que viam, olhos que reparavam, que se compadeciam. Jesus viu
com o coração aquele homem, teve misericórdia e mudou a sua sorte: curou-lhe da
cegueira física e também da espiritual (vv. 35-38)!
Mas enquanto Jesus toma para si a responsabilidade do que viu, seus discípulos
querem “fazer teologia”; enquanto Jesus responde...
Salmo
123
Ele olha e esse olhar é de menor carente, “olhar de pidão” como de um servo ao
seu senhor que anseia por um alívio, não por uma ordem; que para Deus pede
“pinico” diante do caos do mundo; que anseia pelo Jubileu, pela intervenção de
Deus com suas ternas misericórdias.
E assim o salmista cultua: entre duas visões. A que ele tem de sua realidade que
se torna o material de sua oração e a que ele tem de Deus assentado no trono nos
céus, que se torna o objeto de sua adoração e âncora de esperança!
Sede de Intimidade
Para muitos o ideal seria um Big Brother Celestial onde o cristão,
anonimamente, assistisse a intimidade da Trindade e seus anjos; ou quem sabe
um site que pudesse baixar canções celestiais, ver o movimento do Reino em
tempo real, mas sem envolvimento algum. Talvez isso seja um tanto exagerado
e até meio irreverente, mas podemos tentar de novo: uma oração bem feita com
um sotaque bem evangélico e fazendo referências bíblicas para convencer;
promessas, votos; ativismo religioso; disciplinas espirituais na tentativa
de barganhar com Deus; um culto; seminários; retiros; o dízimo. “Pronto, sou
amigo de Deus!”; “tenho intimidade com o Divino!”
Se queres ser perfeito...?
Os mandamentos do Senhor, longe de serem uma lista de regras, são
conselhos de Deus para eu voltar a ser o que eu era em Adão. Quando eu
peco, eu me distancio mais um grau do homem para o qual eu fui criado,
quando eu peco sou menos eu. Agora, toda vez que eu resisto à
pornografia, à mentira, ao egoísmo, à fofoca, à ira, à inveja, à preguiça, à
rebeldia, à vaidade, eu me aproximo de mim mesmo (eu me encontro) e me
aproximo mais do Senhor; eu sou mais eu, porque para isso que eu fui criado,
para uma vida de santidade e comunhão com Deus.
Tristeza necessária ao arrependimento
Lamento muito que a igreja esteja desaprendendo o caminho da
tristeza que leva ao arrependimento; a culpa sadia necessária para o
quebrantamento; a vergonha que compunge; o temor pelas coisas sagradas. Os
ventos da secularização teimam em soprar sobre nossos ambientes, e conceitos
como o sagrado, profano, graça, culpa, pecado... vão se distorcendo. O
pecado sutilmente vai entrando por nossas portas e não conseguimos tratá-lo
com seriedade porque nem sequer o percebemos
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