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DIÁRIO DE BORDO
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O Deus que acolhe as nossas crises
Depois da morte de Jesus, esses discípulos voltam para Emaús levando na mochila muita frustração, dor, saudades e dúvidas. Não tiveram nem a paciência de esperar o fim do terceiro dia (o dia da prometida ressurreição) e já desistiram dos seus sonhos, das profecias e da promessa de Cristo

autor
Márcio Cardoso
é presbítero e ministro de louvor na Igreja Betesda de Curitiba, PR. É músico, compositor, cantor, e é casado com Andréia. 


Vivemos em uma sociedade pragmática onde devemos ser práticos, eficientes e imediatos ao extremo. O avanço da tecnologia, do sistema consumista-pecaminoso nos ensinou isso. O fast-food, a conta on-line, o e-mail, o CD, o DVD, o Sedex 10, o controle remoto, entre outros, fez-nos intolerantes com o tempo que se estica. Dar a vez no trânsito, esperar com paciência a fila e a conexão na Internet são hoje práticas quase que angelicais de tão difíceis de encontrar nos seres humanos.

Somos assim: filhos do instantâneo, incapazes de aprofundar e acolher as crises, os conflitos, as dúvidas do outro e de nós mesmos. Por isso, para todas as questões da vida inventamos um paliativo, um analgésico, uma droga para nos iludir que estamos bem e que resolvemos a questão.

O nosso Mestre não é assim. Ele trata de nossas crises com paciência, com dedicação, com empenho. Vejamos como Cristo lidou com os discípulos de Emaús (Lc 24.13-35).

Depois da morte de Jesus, esses discípulos voltam para Emaús levando na mochila muita frustração, dor, saudades e dúvidas. Não tiveram nem a paciência de esperar o fim do terceiro dia (o dia da prometida ressurreição) e já desistiram dos seus sonhos, das profecias e da promessa de Cristo.

Jesus lhes aparece como um viajante desconhecido, desavisado que andava por ali e passou a ter parte na conversa. Em resposta à crise dos discípulos, Cristo poderia muito bem ter usado um paliativo para amenizar a sua dor. Quando Cléopas perguntou “és o único que ignoras os acontecimentos dos últimos dias?”, Cristo poderia ter simplesmente batido no seu ombro e estancado a dor com a revelação: “Eu sou o Cristo ressurreto! Deixem de choro e voltemos a Jerusalém!”. Mas não! Jesus mais uma vez surpreende! Ele faz outra pergunta em que os discípulos têm a oportunidade de aprofundar as suas crises...Jesus pergunta: “Quais?”. Ele prefere o método socrático, a maiêutica (colocar-se como uma parteira que ajuda a mulher dar à luz. Responder uma pergunta com uma outra pergunta).

Devolvendo uma pergunta, Jesus dá a oportunidade a Cléopas e a seu amigo de conversarem sobre a sua dor e decepção, relembrarem o ministério e a morte de Cristo e pautarem a pressuposta ressurreição do Mestre testemunhada pelas Marias (Mt 28.1). Jesus aprofunda a crise dos discípulos para que eles garimpem tesouros de convicções! Muitas vezes não agimos assim. O máximo que fazemos é uma oração relâmpago (ou na melhor das hipóteses, uma campanha de oração), darmos um conselho técnico desprovido de envolvimento com o indivíduo, inspirarmos o triunfalismo, enfim, usarmos todos os analgésicos possíveis que temos em nosso “kit-resolução” e assim furtamos a oportunidade que o outro tem de garimpar suas convicções. E, como se piorando o que é pior: chegamos ao cúmulo da intolerância quanto taxamos de “rebeldes” aqueles que não pensam da mesma maneira que pensamos, aqueles que questionam, investigam, porque no fundo no fundo, sentimo-nos ameaçados, temos medo da rebelião, da apostasia e assim, achamos muito arriscado discorrer sobre assuntos polêmicos.

Engraçado que o Senhor da Igreja não se sente ameaçado com o pedido dos “filhos pródigos”. Ele fica triste, sofre, mas o seu amor é grande demais para não dar liberdade ao outro de ir embora. O seu amor deixa os “filhos pródigos” irem porque se eles forem e voltarem, voltarão porque sentiram saudades (“presença de uma ausência” – Rubem Alves), voltarão espontâneos, convictos de seu amor pelo Pai.

Jesus percorre com os dois aproximadamente 12km sem se revelar. Ele não tem pressa para “socorrer” os discípulos; aliás, os discípulos já estavam salvos, pois contavam com a santa presença. E aqui fica uma boa lembrança: os nossos conflitos não são, necessariamente, sinônimos da ausência de Deus. Ele pode estar em silêncio, mas está sempre presente. São 12km de crise, mas que o Senhor faz questão de estar “oculto” até que chegue na intimidade deles e ali, num gesto familiar a todos os seus seguidores (o partir do pão), revelar-se.

De Jerusalém para Emaús; da frustração para a promessa cumprida; da saudade para a doce presença; da distância para a comunhão, isto foi o que produziram os 12km de conflito respeitados pelo Mestre.

Que nós aprendamos com o nosso Rabi a andar o quanto for necessário com os nossos irmãos, respeitando suas dores, frustrações, dúvidas e medos, sem clichês, respostas prontas e sem a pretensão de sermos o messias na tentativa de socorrê-los. Todavia exercitemos a arte de ouvir o outro (“... pronto para ouvir, tardio para falar...” – Tg 1.19) marcando presença.

“Ocultos” sim, mas nunca ausentes; silentes sim, mas acolhendo o outro até chegar em casa onde a revelação flui num gesto comum.


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