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Vivemos em uma sociedade
pragmática onde devemos ser práticos, eficientes e imediatos ao extremo. O
avanço da tecnologia, do sistema consumista-pecaminoso nos ensinou isso. O
fast-food, a conta on-line, o e-mail, o CD, o DVD, o Sedex 10, o controle
remoto, entre outros, fez-nos intolerantes com o tempo que se estica. Dar a
vez no trânsito, esperar com paciência a fila e a conexão na Internet são
hoje práticas quase que angelicais de tão difíceis de encontrar nos seres
humanos.
Somos assim: filhos do instantâneo,
incapazes de aprofundar e acolher as crises, os conflitos, as dúvidas do
outro e de nós mesmos. Por isso, para todas as questões da vida inventamos
um paliativo, um analgésico, uma droga para nos iludir que estamos bem e que
resolvemos a questão.
O nosso Mestre não é assim. Ele trata de
nossas crises com paciência, com dedicação, com empenho. Vejamos como Cristo
lidou com os discípulos de Emaús (Lc 24.13-35).
Depois da morte de Jesus, esses discípulos
voltam para Emaús levando na mochila muita frustração, dor, saudades e
dúvidas. Não tiveram nem a paciência de esperar o fim do terceiro dia (o dia
da prometida ressurreição) e já desistiram dos seus sonhos, das profecias e
da promessa de Cristo.
Jesus lhes aparece como um viajante
desconhecido, desavisado que andava por ali e passou a ter parte na
conversa. Em resposta à crise dos discípulos, Cristo poderia muito bem ter
usado um paliativo para amenizar a sua dor. Quando Cléopas perguntou “és
o único que ignoras os acontecimentos dos últimos dias?”, Cristo poderia
ter simplesmente batido no seu ombro e estancado a dor com a revelação: “Eu
sou o Cristo ressurreto! Deixem de choro e voltemos a Jerusalém!”. Mas
não! Jesus mais uma vez surpreende! Ele faz outra pergunta em que os
discípulos têm a oportunidade de aprofundar as suas crises...Jesus pergunta:
“Quais?”. Ele prefere o método socrático, a maiêutica
(colocar-se como uma parteira que ajuda a mulher dar à luz. Responder uma
pergunta com uma outra pergunta).
Devolvendo uma pergunta, Jesus dá a oportunidade a Cléopas e a seu amigo de
conversarem sobre a sua dor e decepção, relembrarem o ministério e a morte
de Cristo e pautarem a pressuposta ressurreição do Mestre testemunhada pelas
Marias (Mt 28.1). Jesus aprofunda a crise dos discípulos para que eles
garimpem tesouros de convicções! Muitas vezes não agimos assim. O máximo
que fazemos é uma oração relâmpago (ou na melhor das hipóteses, uma campanha
de oração), darmos um conselho técnico desprovido de envolvimento com o
indivíduo, inspirarmos o triunfalismo, enfim, usarmos todos os analgésicos
possíveis que temos em nosso “kit-resolução” e assim furtamos a oportunidade
que o outro tem de garimpar suas convicções. E, como se piorando o que é
pior: chegamos ao cúmulo da intolerância quanto taxamos de “rebeldes”
aqueles que não pensam da mesma maneira que pensamos, aqueles que
questionam, investigam, porque no fundo no fundo, sentimo-nos ameaçados,
temos medo da rebelião, da apostasia e assim, achamos muito arriscado
discorrer sobre assuntos polêmicos.
Engraçado que o Senhor da Igreja não se sente ameaçado com o pedido dos
“filhos pródigos”. Ele fica triste, sofre, mas o seu amor é grande demais
para não dar liberdade ao outro de ir embora. O seu amor deixa os “filhos
pródigos” irem porque se eles forem e voltarem, voltarão porque sentiram
saudades (“presença de uma ausência” – Rubem Alves), voltarão espontâneos,
convictos de seu amor pelo Pai.
Jesus percorre com os dois aproximadamente
12km sem se revelar. Ele não tem pressa para “socorrer” os discípulos;
aliás, os discípulos já estavam salvos, pois contavam com a santa presença.
E aqui fica uma boa lembrança: os nossos conflitos não são, necessariamente,
sinônimos da ausência de Deus. Ele pode estar em silêncio, mas está sempre
presente. São 12km de crise, mas que o Senhor faz questão de estar “oculto”
até que chegue na intimidade deles e ali, num gesto familiar a todos os seus
seguidores (o partir do pão), revelar-se.
De Jerusalém para Emaús; da frustração para
a promessa cumprida; da saudade para a doce presença; da distância para a
comunhão, isto foi o que produziram os 12km de conflito respeitados pelo
Mestre.
Que nós aprendamos com o nosso Rabi a andar
o quanto for necessário com os nossos irmãos, respeitando suas dores,
frustrações, dúvidas e medos, sem clichês, respostas prontas e sem a
pretensão de sermos o messias na tentativa de socorrê-los. Todavia
exercitemos a arte de ouvir o outro (“... pronto para ouvir, tardio para
falar...” – Tg 1.19) marcando presença.
“Ocultos” sim, mas nunca ausentes; silentes
sim, mas acolhendo o outro até chegar em casa onde a revelação flui num
gesto comum.
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