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O músico
precisa enxergar claramente o propósito da criação de Deus para a sua vida.
Enxergar o propósito de Deus é trazer referência segura para suas decisões
como cristão e como músico.
Antes de
músico ou artista ele é um ser humano criado à imagem e semelhança de Deus e
precisa buscar esta realização existencial:
·
adorar e desfrutar de Sua presença (Catecismo Menor de
Westminster). Esta consciência é fundamental para que aproveitemos a
vida dentro dos propósitos de Deus. (Isaías 43.7; Efésios 1:11-12; 1 Pe
2:9; 1 Co 10:31)
·
Conhecer e se relacionar com Deus. (Jo 17:3)
·
amar, temer e servir a Deus. (Deuteronômio 6:4-5,13; Rm
12:1,2)
Além da
música, de sua habilidade, de sua criação, o músico deve ter um olhar mais
amplo, que considera outras áreas, fundamentais para sua interação com a
vida e seus relacionamentos. Eis algumas delas:
1.
OLHANDO O PRÓPRIO CORAÇÃO
a) O Coração de Davi (cultivando a integridade)
“Mas o Senhor disse: Não se impressione com a aparência nem
coma altura deste homem. Eu o rejeitei porque não julgo como as pessoas
julgam. Elas olham para a aparência, mas eu vejo o coração” 1 Samuel 16.7
(BLH)
“ Escolheu o seu servo Davi e o tirou do aprisco ( curral)
das ovelhas, do pastoreio de ovelhas, para ser pastor de Jacó, seu povo, de
Israel, sua herança. E de coração íntegro Davi os pastoreou; com mãos
experientes os conduziu”( NIV). - com sabedoria os dirigiu (BLH)
Deus mostrou para Samuel que seus critérios de escolha não
são os mesmos dos que os homens.
Escolhe Davi, e vê o embaraço de Samuel já tendo chamados os primeiros sete
filhos de Jessé. Bem, há outro menino, o mais jovem. “O mais jovem” para o
judeu significava não apenas o mais novo em anos, mas também o mais baixo em
categoria; além disso Davi vivia uma situação de marginalidade na própria
família. “Se o meu pai e minha mãe me desampararem,
o Senhor me acolherá” (Salmo 27:10).
Trabalho braçal e cuidar de ovelhas era responsabilidade de
filhos, já que as ovelhas de ricos eram cuidados pelos servos. Tomar conta
de ovelhas dificilmente atribuiria prestígio a alguém. Ele era obrigado a
fazer esse trabalho de graça, num estado inferior ao de um escravo.
Ovelhas não suprem alimento nem mesmo para o ego. Elas nunca
aplaudem seu pastor e nunca cooperam em nada. Assim, cuidar de ovelhas era
um caminho para a humildade de espírito, para a integridade. Davi tornou-se
sensível ao aprendizado. “Dá-me entendimento, e
guardarei a tua lei; de todo coração a cumprirei” (Salmo 119.34)
Deus ouve e vê o coração! Durante 40 anos de reinado
oscilante de Saul, Deus cuida pacientemente o coração de Davi. Estar com as
ovelhas é o que Deus (Adonai) queria. Estar em solitude tornou sensível às
coisas de Deus. Solitude e silêncio multiplicados pelo tempo, cultivam a
imaginação.
·
Na pastagem quieta, Davi sentiu os ritmos naturais. Ele
fotografou emocionalmente as formas pastorais, sentiu as cores, os aromas e
sons que seriam sua assinatura poética para sempre.
·
Solitude e silêncio expandiram a consciência de Deus em Davi.
O Senhor tornou-se o coração dos sonhos de Davi.
·
Escrevendo Salmos
Davi registrou a música daqueles dias. Escreveu e cantou suas aspirações e
reflexões a respeito do Senhor. Por meio deste Salmos, 3000 anos depois,
podemos entrar rapidamente nos lugares secretos da alma de Davi e igualmente
na presença de Deus! Os Salmos são como uma auto-estrada movimentada entre o
Deus Todo-Poderoso e as impressões e discernimentos do coração solitário do
pastor, entremeadas pelas cenas familiares de sua solidão. Davi cantou e
escreveu a respeito do Senhor Adonai:
“Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e
as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é o homem para que com ele te
importes? E o filho do homem para que com ele te preocupes? ( Salmo 8.3)
“Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a
obra de suas mãos” (Salmo 19.1)
“A voz do Senhor faz dar cria às corças e desnuda os
bosques” ( Salmo 29.9)
No absoluto
anonimato do pasto das ovelhas, quando ninguém verá e ninguém saberia, Davi
repetidamente arriscou sua vida por alguma ovelha que cheirava mal e era
teimosa, que não poderia dar-lhe recompensas pessoais. Mas Deus ainda o
observava e o próprio coração de Davi o estava supervisionando. Esta é a
razão porque ele escreveu: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração,
prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e
guia-me pelo caminho eterno” (Salmo 139:23-24)
b) Cuidar
do coração envolve o discipulado (mais do que informação e conhecimento,
transformação!)
O Dr J.
Packer, um dos maiores teólogos e escritores ainda vivos, escreveu
em vários de seus livros que, mais do que conhecimento intelectual de Deus,
seus atributos, missão, etc, necessitamos de transformação de vida no
discipulado..
Somos
responsáveis e habilitados para a obra naquilo que já conhecemos da vontade
de Deus e da tranformação já operada em nós pelo Espírito Santo.
* Quando
estamos sendo transformados pelo Espírito no discipulado, estamos sendo
equipados e preparados por Deus para os ministérios em Sua obra.
Devemos buscar constantemente, mais do que conhecimento ou informação,
transformação que brota da cruz nesta caminhada.
O Dr.
James Houston realça a importância do mentor espiritual. É mais do que
ter alguém que apenas ensina, mas que também caminha junto, que ouve, que
baliza as reflexões, que avalia as conclusões, que aponta os caminhos mais
saudáveis, que procura “ouvir” o coração. Esta mentoria pode continuar mesmo
na ausência, ficando como referencial.
A presença de
um mentor maduro pode facilitar o caminho de transformação, da vivência ou
aplicação dos conhecimentos adquiridos.
O mentor
espiritual é alguém que reconhecemos por sua sabedoria e
temor a Deus, e a quem nos submetemos para expor nossa alma e
coração. A mentoria espiritual é uma prática que perdeu seu
significado com o crescimento do individualismo no mundo moderno. Queremos
ser auto-suficientes e achamos que qualquer interferência em nossa
privacidade é sempre um risco que não vale a pena correr.
O mentor
é um amigo que nos ajudará a conhecer melhor a nós mesmos e o
lugar que Deus ocupa na nossa vida. Temos a necessidade de abrir o coração e
torna-lo conhecido a alguém, importantíssimo na formação do caráter e
espiritualidade do cristão.
Observação:
Hoje encontramos tão poucos mentores confiáveis (inclusive músicos e
ministros de louvor) porque optamos por um modelo de liderança mais
pragmático e menos contemplativo. Buscamos mais líderes ou referenciais
empreendedores, pessoas com carisma e capacidade de entretenimento ou
ativismo, ou intelectuais dedicados à informação e conhecimento.
2.
OLHANDO A FAMÍLIA
A
espiritualidade bíblica é irrevogavelmente relacional e doméstica (Alfred
North Whitehead). Temos um Deus social que nos criou segundo a Sua
imagem, como seres sociais (Gn1.27). Não fomos criados e nem somos
salvos isoladamente, pois Ele planejou que vivêssemos em famílias, formadas
por pacto, sangue ou adoção.
Ele forma em
Si mesmo, uma família (Pai, Filho e Espírito Santo); e toda a família no céu
e na terra, deriva a sua dignidade da vida social que há no próprio Deus:
Pai, Filho e Espírito Santo habitam em uma comunidade de amor, que sentem
que pertencem um ao outro (Ef 3.15)
Todos nós
temos uma história e ela está ligada à nossa família. Fazemos parte de um
contexto e entendemos que Deus planejou este caminho para nós. Cuidar de
nossos relacionamentos familiares é fundamental para nosso crescimento
pessoal e também como artistas e músicos.
Temos também
na vida de Davi uma história repleta de tragédias familiares. Não só por
seus pecados, mas pela falta de zelo com sua família. Entender nossa
caminhada familiar e aprender com os erros e acertos nos farão pessoas mais
centradas e equilibradas. Muitos músicos tem, infelizmente, suas vidas
familiares destroçadas e que repercute negativamente em suas vidas, criação
e ministério..
Muitos de nós
fomos discipulados por nossos pais (em meu caso, minha mãe Laura, ex-cantora
e pianista profissional, que foi convertida a Jesus), outros não tiveram a
herança cristã, mas podem encontrar em irmãos referenciais de amizade e vida
cristã para balizarem nossas vidas.
3.
OLHANDO A IGREJA
Músicos não
devem deixar de congregar, de comungar, de ter pessoas a quem devem prestar
contas.
Em Cristo nos
tornamos membros de uma mesma família, fraternos na fé. A espiritualidade
está ligada com a doutrina do sacerdócio de todos os crentes,
isto é, o serviço cristão com relacionamentos saudáveis, além de nos levar a
desenvolver algumas jornadas: uma para cima, em direção a Deus, outra
para dentro, buscando entrar em harmonia conosco mesmos e como
resultado, outra jornada para fora, manifestando amor ao próximo.
A espiritualidade cristã na igreja tem uma veia e alicerce
coletivo, comunitário, que é um sinal de saúde e da presença do Espírito
Santo nas relações pessoais e de serviço. Devemos sempre buscá-la.
John
Wesley
escreveu: “Deseja servir a Deus e ir para o céu? Lembre-se que
não pode servir sozinho a Ele. Portanto, você deve encontrar companheiros,
ou cultivá-los; a Bíblia desconhece a religião solitária”
Efésios
4.15,16: “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é o
cabeça, Cristo, 16 de quem todo o corpo bem ajustado e consolidado, pelo
auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o
seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor”
A idéia da
língua original é de ligamento, estamos em contato, tocando uns nos outros.
Somos membros uns dos outros e nos completamos contribuindo para que
cumpramos nossas funções. “Nossa vida relacional não é um mero acessório
à espiritualidade ou ao ministério; antes, é o cerne da
espiritualidade e do ministério (Dr. Paul Stevens)”.
Não podemos
nos desligar de outros membros do corpo místico e permanecer sadios, assim
como não podemos desconectar os ligamentos dos ossos ou viver sem artérias e
veias.
Temos então o
caminho da amizade, que faz com que esta justa cooperação seja
possível e também fortalecida. Redescobrir o caminho da amizade
desinteressada é o desafio, já que basicamente, cônscia ou
inconscientemente, a maioria das relações pessoais que formamos com nossos
irmãos e irmãs servem aos nossos próprios interesses.
Concluindo,
para que possamos então viver no corpo de forma correta relacionalmente e
cumprindo nosso sacerdócio real, devemos construir amizades em amor e mútua
submissão, através de Cristo, que é a base para nossa interdependência, e
quem, como Cabeça do Corpo, coordena e produz um crescimento correto.
4.
OLHANDO A MISSÃO
Fazer
discípulos em todas as nações
é a nossa missão, conforme aprendemos em
Mateus 28:18-20.
Proclamar o evangelho através da arte, das composições, da música e
testemunho de vida é fundamental. Somos cristãos antes de músicos,
professores, médicos, etc. Temos igual responsabilidade em viver esta
vocação e missão.
Neste
processo, estamos também levando pessoas à maturidade em Cristo, conforme
lemos em
2 Tm 2:2,
homens
fiéis e idôneos.
Além
disso, somos desafiados a
fazermos as boas obras que Deus preparou de antemão
para nós (Ef 2:10). Tiago expande esta idéia em sua
carta quando mostra que devemos assumir o ministério do serviço, do socorro,
do auxílio, da misericórdia, levando esperança aos que sofrem, são
descriminados ou excluídos. “Bem aventurados os que tem fome e sede de
justiça” e tentam encarnar o amor de Deus doando suas vidas e talentos em
favor de outros. Servindo ao próximo, estamos servindo ao Senhor e
demonstrando que O amamos verdadeiramente.
O resultado
disto?
Jesus disse que os homens veriam estas obras de amor, e “glorificariam ao
Pai que está nos céus”!!!
Louvor e
adoração
a Deus é
motivação
para nossa vida e também
resultado
do cumprimento de nossa missão: proclamar, testemunhar, fazer discípulos e
servir ao próximo!
Que seja
este nosso estilo de vida, como cristãos, músicos e artistas. Amém.
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