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“Há um sentido em
que todos os agentes naturais, até mesmo os inanimados, glorificam a Deus
continuamente, revelando os poderes que Ele lhes deu. E nesse sentido nós,
como agentes naturais, fazemos o mesmo. Nesse nível, os nossos atos iníquos,
no sentido em que eles exibem nossa perícia e força, pode dizer-se que
glorificam a Deus, tanto quanto nossas boas ações. Uma peça musical
executada com excelência, como operação natural que revela um grau alto dos
poderes e habilidades dados ao homem, desta forma sempre glorifica a Deus,
seja qual tenha sido a intenção dos executores”
C.S.Lewis, no capítulo
“On Church Music”, do livro Christian
Reflections.
Quando falamos de influências recebidas, como
evangélicos, quase sempre negamos o que recebemos “dos de fora”, ou negamos
nossa história “pré-conversão”. Como se não fizesse parte da história de
Deus em nossas vidas. Até por que isto não soa santo, espiritual, cristão,
evangélico, puro, inspirado ou profético.
Muito desta postura e pensamento existe porque na base e
no fundamento teológico de muitos, o mundo foi criado por Satanás e não por
Deus, de que o diabo é criador e não criatura, que os homens são criaturas
das mãos do diabo e não de Deus, distorcendo a revelação das Escrituras
Sagradas. Demos indevidamente o copyright ao inimigo de nossas almas
sobre a criação e sobre ass artes, e não ao Senhor Deus, Criador, Senhor e
Soberano sobre tudo e todos.
História é história, não há como negar ou fazer
desaparecer influências que tivemos e ainda temos, e quando tentamos fazer
isto, entramos em processos de sublimação, de alienação, de fuga da
realidade, sinais de doença instalada e que sugerem a necessidade de
processos terapêuticos e de aconselhamentos posteriores.
Alguns ainda sugerem uma tal e distorcida “cura interior”
do passado, como se toda a herança e formação que tivemos fossem
necessariamente ruins. A herança adâmica sim, em nossa natureza, que não nos
ajuda no caminho da salvação e redenção. Mesmo assim, ela ainda nos
acompanhará até o final dos tempos. Mas outras heranças, com outro foco, de
formação cultural, por exemplo, podem ter sido excelentes e nos balizam
ainda hoje no que somos, pensamos e fazemos na vida.
Isto não significa que estas pessoas, pensadores ou
artistas, são exemplos em tudo de conduta, muitos com vidas e histórias
cheias de crises e pecados (como os homens e mulheres da Bíblia). Mas
tiveram ou têm alguma capacidade no que fizeram, ou um bom legado que
deixaram, seja na área educacional, científica ou artística.
Eu, que
não tive “berço evangélico” ou “maternidade evangélica” (afinal ouvia quase
sempre de irmãos: “...eu nasci na igreja...”), fui menos preconceituoso com
o que recebi através de pessoas não cristãs. Em minha formação familiar e
estudantil, por exemplo, tive ótimos referenciais e professores que me
ajudaram a absorver valores, cultura e informação. Louvo a Deus hoje por
eles, e sei que foi Ele mesmo que planejou e os colocou em minha vida.
Aprendi inclusive com os erros, limitações, “pisadas na bola” e enganos
deles.
Minha
formação musical foi ampla e também vinda de pessoas e músicos não cristãos,
muitos que citarei abaixo. Tenho hoje também, como cristão, bons
referenciais de artistas cristãos e de arte cristã, que alimentam minha fé,
minha adoração, que formam minha CDteca e que ajudam a desfrutar da beleza
da criação. Pimenta, Aristeu, Arlindo Lima, Camargo, Guilherme, Gerson
Ortega, Quico Fagundes, Gladir Cabral, Daniel Maia, João Alexandre, Asaph,
Phil Keaggy, Michael Card, Andraé Crouch, Keith Green, Maranatha Music, etc.
Mas, esta abordagem é para outra reflexão que não esta.
Reflito
hoje em minha história. Minha mãe Laura era cantora profissional, cantora do
rádio em São Paulo, excelente pianista e artista sensível. Admirava música
brasileira e colocou nome de duas filhas de músicas de Dorival Caymmi:
Marina e Dora. Ensinou-me a tocar violão com músicas dele e de Inezita
Barroso e até hoje curto e assisto o seu programa na TV Cultura. Silvio
Caldas, Orlando Silva, Altamiro Carrilho e outros, tornaram-se conhecidos em
nossa casa.
Tínhamos uma “eletrola” Telefunken, valvulada, tipo armário, que ficava
ligada grande parte do dia e por lá passavam os discos que meus familiares
gostavam.
Meu pai
Fenelon, com suas músicas clássicas, músicas de banda sinfônicas (aquelas
que ouvia e via nos coretos de Limeira, cidade do interior de São Paulo)
ligado no programa de rádio do Moraes Sarmento na Bandeirantes.
Meu
irmão Roberto, pianista e músico profissional, ouvindo Tom Jobim, João
Gilberto, Gil, Elis, Bach, Beethoven, Bill Evans, Dave Brubeck, Quincy
Jones, minha irmã Marina trazendo os discos dos Beatles, James Taylor, Bob
Dylan, Elton John, Roberto Carlos; e eu ouvindo isto tudo e mais Mutantes,
Terço, Guilherme Arantes, Emerson, Lake and Palmer, Yes, Focus, Deep Purple,
Led Zeppelin, Tim Maia, e a tchurma do Clube da Esquina, vento maravilhoso
de Minas Gerais.
Lembro-me do meu irmão Roberto me levando a um show com um público de umas
50 pessoas somente, no teatro da Fundação Getúlio Vargas para assistir um
“tal” de Milton Nascimento, Lô e Marcio Borges, Wagner Tiso, Nelson Ângelo,
Beto Guedes, Toninho Horta, cantando e tocando coisas maravilhosas deles e
de Fernando Brant. De que planeta estes músicos maravilhosos vieram? Quanta
beleza e criatividade!!! Eram do Clube da Esquina, hoje transformado em
museu e espaço histórico.
Bom,
minha mocidade foi definitivamente marcada por Lennon e McCartney e suas
gravações no EMI´s ABBEY ROAD studio (minha e a de uma geração toda né?
hehehe), do rock tradicional e progressivo, e pelos “garotos” repletos de
musicalidade, poesia e brasilidade de Minas Gerais.
Daí,
veio a conversão dos 17 para os 18 anos em 1972. Entro na igreja evangélica
e tenho um choque cultural e musical. Começo a tomar contato com músicas do
Cantor Cristão, hinário batista, ouvir todos os dias minha mãe tocar ao
final de tarde hinos que viriam a fazer parte de minha vida, acompanhar
cantatas tocando e cantando, gravar discos evangélicos, fazer parte de um
momento na história da igreja no Brasil de avivamento em trabalhos com
juventude e da experiência de Vencedores por Cristo.
Por
imaturidade e ignorância, anos antes vendi minha guitarra Gibson por achar
que não poderia usar “um instrumento que usava na velha vida”. Mas tinha uma
outra que guardei (pecador eu, não?), uma Fender Jaguar Branca, igual a do
Jimi Hendrix, onde toquei e solei no dia do meu batismo dentro de uma igreja
batista tradicional o “Vencendo Vem Jesus”, com o histórico pedal Big Muff.
Quando descobri que instrumento é só “um instrumento”, comprei novamente uma
Gibson, testemunha até hoje de boa parte da história recente da música
cristã.
Um grande amigo nesta época, Gerson Ortega, músico e hoje
pastor, ajudou-me muito a lidar com a questão da música. Sentia-me “menos
culpado” de ainda gostar de música chamada secular ou “do mundo” quando
encontrava na casa dele algum disco de conjuntos e músicos não cristãos que
admirávamos.
Ajudou-me a ter critérios, a absorver o que é bom, junto com Guilherme Kerr,
companheiro de canções, que viveu e foi influenciado também pela música dos
anos 60-70. Os escritos de Francis Schaeffer (“O Deus que intervém”),
C. S. Lewis (“Cristianismo Autêntico”) e John Stott
(“Contracultura Cristã”), foram balizadores em meu refletir e pensar de
forma cristã.
Inclusive por que pensava e continuo pensando que a criatividade e
inspiração têm sido dada a pessoas e artistas não cristãos, que de alguma
forma manifestam a criatividade de Deus. Isto é, um incrédulo pode ser mais
ou tão criativo do que um crente confesso. É o que constato quando analiso
as artes de maneira geral, e quando ouço a mesmice e a falta de criatividade
das composições e produções chamadas evangélicas de nossos dias.
O
próprio João Calvino declarou (Lectures on Calvinism, de Abraham Kuyper)
que “a arte é dada por Deus indiscriminadamente, tanto para crentes
quanto para incrédulos”, o que os teólogos chamam de “graça
comum”. Ele escreveu certa vez que “as irradiações
da luz divina brilharam mais radiosamente entre pessoas incrédulas do que
entre os santos de Deus”.
Ainda,
às vezes, ao ouvir uma música, composição de outros artistas ou minha mesmo,
deparo-me com uma seqüência melódica ou harmonia que “já tinha ouvido em
algum lugar”. As inéditas ou consideradas por mim inspiradas por Deus, vem
impregnadas de referências sonoras ou de letras, absorvidas por minha mente
e sentimentos durante meu crescimento e história.
A inspiração divina é soprada em homens e mulheres com
suas heranças culturais e realidades, movimentos que fazem a história de
Deus na história dos homens. E o evangelho vem com seus valores e mensagem,
transformar, redimir o homem, sua cultura, sua arte, sua história, balizando
o Seu reino.
Agradeço a Deus pelo que vi, escutei e aprendi em minha história, agradeço
por ser um simples mortal e terráqueo, que absorveu e gostou de muita coisa
feita por não cristãos e ainda gosta. Pessoas a quem Deus ama profundamente.
Tenho aprendido a discernir e reter o que é bom. Nem tudo é bom e edifica.
Canalizo minha admiração por eles sem idolatria ou sem se tornarem objeto de
culto, e consigo adorar a Deus pela capacidade criativa dada a cada um
deles. Sinto-me livre para ouvir e apreciar.
Lennon
e McCartney fizeram coisas lindas e revolucionárias (até os banais e
descartáveis, com os arranjos do George Martin, o “quinto beatle”, ficavam
bonitas), mas não sou defensor do “Let it Be” como estilo de vida. Soube que
George Harrison conheceu a Cristo antes de morrer (este buscou a Deus e o
significado da vida). Se for verdade, agora desfruta da presença do Sweet
Lord verdadeiro, não do Hare Krishna,
Sou
mais hoje “plantar o trigo e refazer o pão de todo e cada dia, beber o
vinho e renascer na luz de cada; a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada, o
brilho cego de paixão e fé, faca amolada; deixar a Sua luz brilhar e ser
muito tranquilo”, cantada pelo Beto e Milton.
Quero
mais o Deus amigo de Gladir Cabral, compositor e pastor:
“bom é ter um
prato cheio na mesa, a mesa
farta de amigos, amigos plenos da vida, a vida em sopros divinos, sopros de
luz, claridade, luzes que mostram caminhos, e sendas que dão liberdade,
honra, juízo e atino...”.
O Deus
das Escrituras, O Grande Artista, está na simplicidade da vida, nos
relacionamentos, no cotidiano, e manifesta sua presença e criatividade
também nas artes e em artistas em toda a história. Precisamos é perceber e
identificar Sua presença. “Repreender” menos o conteúdo de nossa história e
APRENDER mais dela. E adorar a Ele, porque esteve sempre presente em nossa
caminhada!
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