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Algumas décadas atrás, a igreja brasileira sofreu algumas divisões
provocadas por entendimentos diferentes quanto à doutrina do Espírito Santo
e a adoração. Na adoração e louvor, as divisões quase todas se deram por uma
análise das “posturas externas”. Uns levantavam a mão, outros não, uns
diziam aleluia, outros não, uns batiam palmas, outros não, uns dançavam,
outros não, uns falavam em línguas, outros não, uns eram informais nos
cultos públicos, outros não, etc.
Nossa adoração pública era influenciada por
movimentos musicais que refletiam situações específicas vividas por algumas
pessoas ou algumas igrejas em seus países de origem. Recebemos heranças que,
não há como negar, os missionários trouxeram para a igreja brasileira, e
muito foi absorvido sem questionamento ou uma análise mais profunda. Por
exemplo, dizia-se que não se podia usar música popular nos cânticos e hinos,
e não nos dávamos conta que nossos hinários estavam repletos de músicas
populares acrescidas com letras de temática bíblica ou cristã.
Tivemos a influencia de Ralph Carmichael, Otis
Schillings, Salomão Ginsburg, Kurt Kaiser, Beverly Shea (das cruzadas de
Billy Graham), do ministério Maranatha Music, das cantatas de Peterson, etc.
Em seu pano de fundo, refletiam momentos com ênfases doutrinárias vividas
pela igreja na América do Norte. A igreja brasileira, ainda sem uma
identidade na adoração, simplesmente absorvia estes modelos e produções,
muitas delas de excelente qualidade musical e teológica, outras nem tanto.
Fomos nos tornando mais rebuscados na adoração
e em nossas manifestações artísticas, ao mesmo tempo em que se confundia
adoração somente com música. A igreja estava desmobilizada para a adoração
pessoal e comunitária, vivia-se de apresentações musicais onde as pessoas
“assistiam” os chamados “serviços de culto”. A tentação de copiar modelos
era grande, a busca por novidades era intensa e não tínhamos muitos mentores
que pudessem ajudar a igreja brasileira a crescer nesta compreensão da
adoração.
Por isso que trabalhos como o do Pr. João Souza
Filho, Gottfriedson, Asaph Borba (na época na Seara Latina Evangelística),
Jairinho e Paulo César (na época na Palavra da Vida), Vencedores por Cristo,
tornaram-se referenciais para muitos. E graças a Deus, bons referenciais.
Fomos abençoados por eles.
A busca por modelos e novidades que vêm de fora
continua como característica da igreja brasileira nestes dias. Uma geração
mais enfraquecida em sua compreensão bíblica, pois quase desapareceram
os mestres e pastores que pregam a Bíblia expositivamente,
preocupados e cuidadosos em ensinar o que ela diz, considerando as linguas
originais, contexto, regras básicas de interpretação bíblica, etc.
Conseqüentemente, o povo está menos habilitado a discernir e avaliar o que
estamos ouvindo e vendo, fazendo o filtro fundamental de “reter o que é
bom”.
Infelizmente, em nossa geração consumista,
instantânea e internética, que cultua a “imagem”, que “clama” novidades
o tempo todo (Ron Kenoly e Graham Kendrick já são vistos como ultrapassados,
imaginem só!), não buscamos os caminhos de simplicidade na adoração conforme
ensinado por Jesus. Ele que nunca se iludiu ou se iludirá com manifestações
e aparências externas na forma de religiosidade (Isaías 1) ou
de eventos megalomaníacos para a mídia.
O lugar esquecido da adoração, continua sendo o
coração do homem, quebrantado, humilde e que reconhece
a necessidade existencial e espiritual de conhecer, se entregar e andar com
Cristo Jesus para de fato poder adorar a Deus (João 4:20-28).
Enquanto isso, trabalhos musicais aportam numa velocidade incrível em nosso
país, disseminando e despejando suas idéias e convicções sobre adoração,
algumas bem pontuais, circunstanciais, e baseados na experiência ou
revelações recebidas, de uma ou duas pessoas.
Tenho participado de um número enorme de
encontros, retiros e congressos, onde, em nome de “contribuir” para a visão
da igreja brasileira, colocam-se pessoas de todas as tendências, estilos e
pensamentos diferentes, para que, como num grande supermercado, escolhamos a
linha ou visão a seguir. A idéia é: “consuma o que desejar e for pertinente
para a sua realidade”. Quase no slogan do comercial conhecido em nosso país
“experimenta, experimenta, experimenta”.....
Ao contrário de maturidade, abertura de mente e
humildade, isto reflete nossa insegurança e imaturidade em não balizar
caminhos saudáveis para a adoração através do que a Bíblia realmente ensina,
isto é, numa exegese mínima aceitável.
Demonstra também uma grande fragilidade dos
chamados líderes de adoração (termo que precisa também ser definido e
explicado), que não ajudam as pessoas a discernir o que é bíblico e
pertinente para a adoração. Falta-nos coragem de dizer o que cremos ou
pensamos de fato e alertar sobre enganos que temos visto.
Em nome de uma “unidade cosmética”, refletida
em muitos palcos, ficamos em nossos cantos, vendo proliferar idéias e
manifestações perigosas; algumas altamente manipulativas e humanizadas, e
não colocamos a cara para bater falando, exortando e alertando dos perigos
que alienam as pessoas de uma adoração que deve estar presente na vida, no
cotidiano, no dia a dia, no silêncio, nos relacionamentos, onde ninguém vê
ou está olhando, sem rádio e TV .
Percebemos uma igreja que é altamente
desmobilizada, por exemplo, na prática da ação social e ministério do
socorro, adoração prática recomendada por Tiago (Tg 1.27).
Onde estão as “reuniões poderosas de adoração” no serviço em favelas,
hospitais, cuidando dos meninos e homens de rua, na evangelização e obra de
missões, que transformam pessoas e realidades sociais? Onde está a adoração
que abraça causas humanas e de justiça? Isto não passa nem de perto na
compreensão de vários ministérios e líderes de adoração que caminham em
nosso país.
Ouve-se sobre adoração profética, sem se
definir o que significa adoração e o que se quer dizer com
profético. Como se ouve tanta coisa sobre isto, e mal explicado,
quase como um jargão, a confusão se instala. Usam-se de forma inadequada o
termo profético e a palavra profecia.
O retorno ao louvor hebraico como
pré-requisito na adoração,“parece” o caminho mais seguro ou
divino, mas é um engano; busca-se então, um modelo de louvor chamado
extravagante (precisamos buscar as bases bíblicas sobre o que é
isto), Outro caminho trilhado tem sido a chamada “adoração
no e do “mover” (quem conseguiu mapear a ação do Espírito que
sopra onde quer, ninguém sabe de onde ele vem e nem para onde vai?). Outras
ênfases sobre “posturas” do adorador tem sido veiculadas,
quase como mudança de hábitos ou comportamento, e não de transformação
interna e pessoal, etc.
O Pai continua a procura dos que o adorem em
espírito e em verdade. Como igreja, precisamos sempre do ensino e
compreensão bíblica sobre adoração; o caminho está aberto para os
mestres, pastores, e os que ministram louvor em nosso país que
tem seus ministérios reconhecidos. As pessoas estão olhando para
estes referenciais, e, portanto, temos que ser mais prudentes.
Esclarecer e não confundir, ajudar as pessoas
comuns a encontrar e adorar a Jesus na singeleza e simplicidade da vida, na
meditação, na oração, na comunhão, na missão, na contemplação, e não em
ritos mágicos, em oráculos e modelos decifrados por alguns especialistas e
privilegiados dos “mistérios” da adoração.
Há uma grande responsabilidade sobre os que
ensinam em ajudar a igreja brasileira a entender, expressar e viver a
adoração em todas as suas dimensões. A capacitação sem dúvida é do Espírito
Santo.Temos boas influências que vêm de fora de nosso país, cabe-nos orar,
ouvir, discernir com sabedoria e mútuo conselho, e reter o que é bom,
segundo a revelação da Palavra de Deus.
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